O mundo entra em um período de incerteza nuclear com o fim do tratado Start III, abrindo espaço para uma possível corrida armamentista entre EUA, Rússia e China.

O último tratado de desarmamento nuclear em vigor entre Estados Unidos e Rússia, conhecido como Start III ou New Start, expirou, deixando um vácuo de controle de armas que preocupa a comunidade internacional. Sem um acordo renovado entre as potências, o temor de uma nova corrida armamentista, desta vez envolvendo a China, ganha força.

O tratado, em vigor desde 2010, estabelecia limites para os arsenais nucleares estratégicos de Moscou e Washington. A Rússia chegou a propor uma extensão de um ano, mas a proposta foi ignorada pelos EUA, que defendem a inclusão da China nas negociações, algo que Pequim rejeita.

EUA e Rússia detêm a vasta maioria das ogivas nucleares globais, mas a China tem expandido seu arsenal a um ritmo acelerado. A expiração do acordo bilateral, conforme análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), não significa um início automático de uma nova corrida, mas as ações futuras das potências definirão o rumo.

A expansão assimétrica dos arsenais nucleares

Dados recentes revelam uma disparidade na evolução dos arsenais nucleares nos últimos 13 anos. Segundo o Conselho de Riscos Estratégicos, a Rússia expandiu seus sistemas com capacidade nuclear em 22%, com destaque para o aumento de 20% em submarinos nucleares. Já a China demonstrou um crescimento ainda mais expressivo, com um aumento de 635% em mísseis balísticos de alcance intermediário e a introdução de novos veículos de lançamento.

Em contraste, os Estados Unidos reduziram seu arsenal de mísseis balísticos lançados por submarinos em 17%. Enquanto o Exército chinês viu um aumento de 88% em sua força de mísseis balísticos intercontinentais, os EUA diminuíram essa capacidade em 11% durante o período de vigência do New Start. Essas tendências indicam que a Rússia já investia em seus arsenais antes mesmo do fim do acordo, e a China, fora do tratado, expandia seus recursos militares drasticamente.

Rússia e o histórico de descumprimento de acordos

Desde a assinatura do New Start em 2010, a Rússia tem um histórico de violar, suspender ou abandonar diversos acordos importantes de controle de armas. Em 2022, Moscou suspendeu as inspeções no âmbito do tratado, um componente crucial para a transparência. No ano seguinte, a Rússia suspendeu sua participação no New Start e retirou a ratificação do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares.

Uma proposta mais restrita de Vladimir Putin aos EUA visava a manutenção das restrições quantitativas por um ano após o término do acordo, desde que os EUA se abstivessem de ações que pudessem desestabilizar o “equilíbrio de dissuasão existente”. No entanto, a oferta não incluía o retorno das inspeções ou outras medidas de transparência, levantando dúvidas sobre a real intenção de Moscou em manter a não proliferação nuclear.

Novas prioridades e restrições orçamentárias moldam o cenário

O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) aponta que EUA e Rússia mantêm uma paridade em números e sistemas nucleares. O cenário geopolítico atual, incluindo os esforços para a resolução do conflito na Ucrânia, pode contribuir para a manutenção do status quo em relação a uma corrida armamentista. Há também a possibilidade de que a Rússia busque manter boas relações com os EUA para recuperação econômica.

As finanças dos países também sinalizam uma relutância em investir massivamente em armas nucleares. A Rússia, por exemplo, enfrenta um déficit orçamentário e receitas de petróleo e gás reduzidas devido à guerra na Ucrânia e às sanções internacionais. Os EUA, por sua vez, parecem mais focados no desenvolvimento de defesas antimísseis, como evidenciado pela ordem executiva de Donald Trump para a construção do sistema “Domo Dourado”, um projeto que pode custar trilhões.

A China e a “teoria dos três escorpiões”

A China desperta crescente preocupação internacional devido a atividades militares pouco transparentes. Investigações recentes, utilizando imagens de satélite, revelaram o avanço secreto do país na produção de ogivas nucleares, com a rápida reestruturação de instalações para fabricar componentes nucleares. Essa situação tem levado os EUA a buscarem a inclusão da China no diálogo internacional sobre controle de armas.

Especialistas em estratégia nuclear alertam que a ascensão da China como terceira grande potência atômica rompe com a lógica de estabilidade da Guerra Fria, comparada à “teoria dos dois escorpiões”. Andrew F. Krepinevich Jr., em artigo para a Foreign Affairs, descreve um sistema tripolar como mais caótico, onde cada país precisa se proteger simultaneamente de dois adversários, aumentando o risco de erros de cálculo e escaladas em momentos de crise. “Em um mundo com um sistema nuclear tripolar haverá tanto um risco maior de uma corrida armamentista nuclear quanto incentivos ampliados para que os países recorram a armas nucleares durante uma crise”, escreveu Krepinevich.

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