Depoimento de Daniel Vorcaro à Polícia Federal revela acusações contra o Banco Central e o mercado financeiro na liquidação do Banco Master.
A liquidação do Banco Master, decretada em novembro de 2025, foi descrita por seu fundador, Daniel Vorcaro, como uma “ofensiva articulada para retirá-lo do mercado financeiro”. Em depoimento à Polícia Federal, Vorcaro apontou o envolvimento de uma ala do Banco Central e de bancos convencionais na decisão.
Vorcaro contesta a versão de que o banco estivesse à beira de um colapso técnico inevitável. Ele sustenta que o encerramento das atividades foi resultado de uma combinação de interesses de grandes instituições financeiras concorrentes e do Departamento de Organização Financeira do Banco Central, incomodados com o modelo de negócios e o crescimento acelerado do Master.
Essa narrativa defensiva, comum em casos de instituições financeiras em crise, é vista com cautela por analistas de mercado e especialistas em regulação. Eles apontam que a declaração de Vorcaro minimiza fragilidades internas do próprio modelo de negócios do Master, como a dependência excessiva de recursos do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e a oferta de produtos com rentabilidade acima da média.
A Estratégia do Master e as Mudanças no FGC
Desde 2018, o Banco Master estruturou sua estratégia com base no FGC, operando dentro das regras vigentes e explorando um nicho pouco explorado pelos grandes bancos. No entanto, alterações regulatórias no Fundo Garantidor de Créditos impactaram a capacidade de captação do banco.
Segundo Vorcaro, as novas regras impuseram restrições à emissão de títulos lastreados no FGC e reduziram o acesso a plataformas de investimento, o que teria provocado uma crise de liquidez, e não um quadro de insolvência. Ele alega que o Banco Central alterou a regulamentação do FGC de forma direcionada, estrangulando a capacidade de captação do Master.
Contudo, a economista Regina Martins contesta essa visão, afirmando que as alterações nas regras do Fundo não tiveram como alvo específico o Master, mas sim a redução de riscos sistêmicos de modelos agressivos de captação de recursos, capazes de gerar um efeito dominó em caso de insolvência. Ela ressalta que “essas práticas já vinham sendo observadas com ressalvas por técnicos do sistema financeiro muito antes da intervenção”.
Venda de Ativos e a Perda de Poder de Barganha
Vorcaro também relatou ter sido forçado a vender ativos importantes do Master com deságio, ou seja, por valores abaixo do preço de mercado, durante um processo de recuperação imposto pelo Banco Central. Ele afirma que essas vendas beneficiaram diretamente outros bancos, concorrentes que teriam interesse em seus títulos bons.
Analistas, no entanto, contestam esse ponto, afirmando que operações desse tipo são recorrentes em cenários de estresse de liquidez e refletem a perda de poder de barganha da instituição. Para eles, os preços praticados indicariam a percepção de risco elevado por parte do mercado, e não uma ação coordenada para depreciar deliberadamente os ativos do Master.
Regina Martins reforça que o desfecho do Banco Master estaria mais relacionado a um modelo de negócios de alto risco e falhas de governança do que a uma articulação deliberada de concorrentes ou autoridades.
O Mercado Brasileiro e a Concentração de Poder
Vorcaro descreve o mercado bancário brasileiro como pouco aberto à concorrência e dominado por um “pequeno grupo de instituições que não toleram a entrada de novos competidores com modelos inovadores”. Segundo ele, essas instituições teriam interesse direto em eliminar o Master para preservar margens de lucro e a concentração do crédito.
Para consultores, contudo, as declarações de Vorcaro sobre um suposto interesse deliberado de outros bancos na quebra do Master não encontram respaldo na lógica do sistema financeiro. Quebras bancárias geram instabilidade sistêmica e podem contaminar a confiança do mercado como um todo.
Rui São Pedro, analista de mercado financeiro, complementa que “o principal interesse de bancos saudáveis, em cenários de estresse, não é a falência do concorrente”, embora possam ter interesse na aquisição seletiva de ativos bons.
Guerra de Narrativas e a Divisão Interna no BC
Vorcaro alega ter sido alvo de uma “guerra de narrativas”, com uma campanha midiática negativa conduzida por veículos ligados a bancos concorrentes. Essa exposição, segundo ele, visava abalar a confiança do mercado e criar um ambiente propício para a atuação de órgãos de controle.
Analistas rejeitam essa tese, afirmando que reportagens e apurações geralmente surgem a partir de sinais de irregularidades e dificuldades financeiras, sendo a exposição negativa uma consequência da crise, e não a causa de seu agravamento.
O fundador do Master também aponta para uma divisão interna no Banco Central, com a Diretoria de Fiscalização defendendo soluções de mercado e a Diretoria de Organização do Sistema Financeiro adotando uma postura hostil, criando uma “gincana regulatória”.
O Papel do BRB e as Investigações em Andamento
Vorcaro mencionou explicitamente o Banco Regional de Brasília (BRB) como um dos principais receptores de ativos do Banco Master, negociados com desconto em relação ao valor de mercado. O BRB confirmou ter prestado esclarecimentos às autoridades e abriu apurações internas sobre operações financeiras, incluindo as relacionadas ao Master.
O Banco Central, por sua vez, destacou que cabe a cada instituição financeira a responsabilidade pela análise da qualidade dos créditos e pela manutenção de controles internos adequados. A instituição reafirmou a obrigação legal de acompanhar as condições de liquidez do sistema financeiro.
Atualmente, a Polícia Federal instaurou um novo inquérito para investigar supostas irregularidades dentro do Banco de Brasília, reforçando a complexidade e o alcance das investigações em curso.