Análise de texto sobre IA prevê “PIB Fantasma” e desemprego em massa, gerando pânico nos mercados.
Ações de grandes empresas de tecnologia, especialmente no setor de software, sofreram quedas expressivas na bolsa de valores. A desvalorização foi amplamente atribuída a um artigo que circula em blogs e redes sociais, apresentando um panorama sombrio para a economia global impulsionado pelo avanço da inteligência artificial.
Empresas como Datadog, CrowdStrike e Zscaler viram seus valores de mercado despencarem mais de 9%. A International Business Machines (IBM) registrou uma queda de 13%, o pior desempenho diário desde o ano 2000. Outras gigantes financeiras e de tecnologia, como American Express, JPMorgan, Citigroup, Morgan Stanley, Mastercard e Visa, também apresentaram perdas significativas.
Conforme apontam analistas e jornalistas especializados, o principal gatilho para essa turbulência nos mercados foi uma publicação da Citrini Research, plataforma de finanças no Substack fundada pelo investidor James van Gleek. O texto, que rapidamente viralizou, introduz o conceito de “PIB Fantasma”.
Essa ideia central sugere que, embora a inteligência artificial possa aumentar a produtividade e o tamanho de algumas economias, ela também provocaria um desemprego em massa ao substituir trabalhadores humanos. Dessa forma, o aparente crescimento econômico seria ilusório, sem beneficiar a população em geral.
O “PIB Fantasma” e a simulação de um futuro sombrio
O artigo da Citrini Research, publicado como um “exercício mental”, simula um relatório datado de 30 de junho de 2028. Neste cenário fictício, o desemprego atinge 10,2%, e o índice S&P 500 sofre uma queda de quase 40%. Em apenas dois anos, os mercados teriam transitado de uma euforia com a IA para uma profunda crise.
Segundo os autores, a inteligência artificial causaria um desemprego generalizado entre profissionais de “colarinho branco”, responsáveis por atividades administrativas e de gestão. A produtividade das empresas saltaria com robôs e agentes de IA operando com eficiência superior, pois “não dormem, não tiram dias de folga por doença e não precisam de plano de saúde”, conforme descrito no texto.
No entanto, essa eficiência geraria o “PIB Fantasma”: ganhos massivos de produtividade que não se refletiriam em aumento de salários reais. Trabalhadores substituídos teriam que buscar empregos com remuneração inferior, levando a uma queda geral nos rendimentos.
“Quando começaram a surgir fissuras na economia de consumo, os especialistas econômicos popularizaram a expressão ‘PIB Fantasma’: produção que aparece nas contas nacionais, mas nunca circula pela economia real”, relata a Citrini Research, antecipando a análise de economistas futuros sobre a crise.
A espiral de substituição e o colapso de setores tradicionais
O artigo descreve uma “espiral de substituição da inteligência humana” a partir de 2026, no cenário simulado. A melhoria contínua das capacidades de IA levaria à redução da necessidade de funcionários, aumentando as demissões e, consequentemente, diminuindo o consumo.
Essa queda no consumo pressionaria as margens de lucro das empresas, incentivando ainda mais o investimento em IA, o que, por sua vez, aprimoraria ainda mais as capacidades da tecnologia. Os autores descrevem isso como um “ciclo vicioso sem freio natural”.
O texto detalha como empresas de software, ao desenvolverem “agentic coding” (código gerado por agentes autônomos de IA com mínima intervenção humana), criariam eficiências para seus clientes. Contudo, menos trabalhadores significariam menos licenças de software, prejudicando o próprio setor de desenvolvimento.
A crise no setor de softwares seria apenas o prelúdio de uma crise mais ampla. Praticamente todas as atividades que exigem trabalho especializado, como comércio, agências de turismo, contabilidade e serviços legais, seriam otimizadas por máquinas, gerando ganhos de eficiência.
O artigo destaca que até mesmo áreas onde as relações humanas são valorizadas se provariam frágeis. O mercado imobiliário, por exemplo, onde comissões elevadas eram toleradas devido à assimetria de informação, desmoronaria com agentes de IA capazes de replicar instantaneamente o conhecimento de mercado.
Aplicativos de entrega de comida também seriam impactados. Agentes de IA poderiam criar aplicativos mais eficientes, repassando a maior parte da receita aos motoristas. No entanto, estes últimos também enfrentariam a substituição por veículos autônomos em breve.
O fim da “criação de novos empregos” e a queda salarial
O texto aborda a crença tradicional de que a inovação tecnológica destrói empregos, mas cria outros. A inteligência artificial, sendo uma “inteligência geral”, aprimora as próprias tarefas para as quais os humanos seriam realocados, anulando essa dinâmica.
Embora a IA continue criando novos empregos, como engenheiros de prompt, pesquisadores de segurança e técnicos de infraestrutura, estes não seriam suficientes para absorver a mão de obra perdida. Além disso, os salários nesses novos postos seriam consideravelmente mais baixos.
Como exemplo fictício, uma gerente sênior de produto, que em 2025 ganhava US$ 180 mil por ano, perde o emprego e, após seis meses de busca, passa a dirigir para o Uber, com ganhos reduzidos para US$ 45 mil. Esse cenário ilustra a drástica queda salarial e a desvalorização de carreiras antes consideradas estáveis.
A consequente queda na massa salarial levaria a dificuldades no mercado imobiliário, com compradores incapazes de honrar seus empréstimos. Governos se veriam em uma situação frágil, com menor arrecadação de impostos e a necessidade de transferir mais recursos para a população.
“O governo precisa transferir mais dinheiro para as famílias exatamente no momento em que está arrecadando menos impostos delas. A capacidade da IA está evoluindo mais rápido do que as instituições conseguem se adaptar”, alertam os autores, criticando a lentidão das respostas políticas.
Ceticismo e resiliência diante das previsões
Apesar do impacto e da viralização do artigo, nem todos compartilham do mesmo pessimismo. O colunista Robert Armstrong, do Financial Times, sugere que o mais relevante não é o conteúdo da previsão, mas o fato de que “o mercado de ações chegou ao ponto em que postagens em blogs causam movimentos significativos nas ações”.
Armstrong aponta que a polêmica em torno da Citrini Research pode ser mais um indicativo de um “mercado inflado que busca uma desculpa para cair”, com razões que vão além da inteligência artificial. Ele sugere que o cenário traçado pela Citrini “pode estar ignorando a adaptabilidade humana e a resposta institucional”.
Nick Lichtenberg, editor de Negócios da Fortune, argumenta que a IA poderia “eventualmente democratizar o acesso à abundância de recursos”. Ao reduzir custos, bens e serviços ficariam mais baratos, aumentando o poder de compra real, mesmo para famílias com renda nominal mais baixa.
Tanmai Gopal, CEO da PromptQL, estima que 70% dos trabalhos atuais não podem ser totalmente automatizados, pois a IA necessita de treinamento contínuo, e o contexto humano é dinâmico demais para atualizações frequentes. O próprio CEO do JPMorgan Chase, cujas ações caíram, afirmou que os temores sobre IA são exagerados e que seu banco usará a tecnologia a seu favor.
Os autores da Citrini Research, contudo, finalizam o artigo lembrando que ainda estamos em 2026 e os “ciclos negativos ainda não começaram”. Eles ressaltam que, como investidores e sociedade, ainda há tempo para avaliar os riscos e serem proativos diante da aceleração da inteligência artificial.