Reza Pahlavi, o herdeiro de um regime deposto, emerge como figura de oposição no Irã.
Em meio a tensões crescentes e ataques entre o Irã, Estados Unidos e Israel, o nome de Reza Pahlavi, autoproclamado príncipe herdeiro do Irã, ganhou destaque. Ele publicou uma mensagem nas redes sociais após ataques americanos a cidades iranianas, afirmando que a “ajuda americana finalmente chegou” e que “o momento de retornar às ruas está próximo”.
Pahlavi, que vive no exílio há décadas, é filho de Mohammad Reza Pahlavi, o último xá do Irã, que governou o país sob uma ditadura secular entre 1941 e 1979, quando foi deposto pela Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini.
A ascensão de Reza Pahlavi como figura de oposição, no entanto, não é um consenso. Analistas e até mesmo dentro do espectro político iraniano há divergências sobre seu papel e potencial liderança. Para entender sua posição, é fundamental revisitar a história da dinastia Pahlavi.
A Dinastia Pahlavi: Modernização e Repressão
A dinastia Pahlavi, fundada por Reza Khan em 1925, foi marcada por uma rápida modernização do Irã, com forte apoio ocidental. Seu filho, Mohammad Reza Pahlavi, deu continuidade a esse projeto, promovendo crescimento econômico com taxas de 8% a 11% do PIB ao ano. No entanto, o regime também foi caracterizado por um temido serviço secreto, o Savak, responsável por tortura e repressão a opositores.
A desigualdade social e a oposição da esquerda marxista e intelectuais foram catalisadas pela figura religiosa de Ruhollah Khomeini. As reformas laicizantes do xá levaram Khomeini ao exílio em 1964. Em 1978, protestos massivos contra o regime foram brutalmente reprimidos, culminando na “Sexta-Feira Negra”, quando dezenas de manifestantes foram mortos.
Em janeiro de 1979, o xá deixou o país, e em fevereiro de 1980, Khomeini retornou do exílio, aboliu a monarquia e instaurou a República Islâmica do Irã.
Reza Pahlavi: O Príncipe Exilado em Busca de Legitimidade
Reza Pahlavi, que deixou o Irã na juventude e não pisa em sua terra natal desde 1978, acompanhou a queda de sua dinastia à distância. Após a morte de seu pai no exílio em 1980, ele se declarou “Reza Xá II”, o novo monarca do Irã. Contudo, com um círculo restrito de apoiadores, ele e sua família viveram em diversos países antes de se estabelecerem nos Estados Unidos.
Apesar de se declarar favorável a uma democracia parlamentar secular, onde o povo decidiria a forma final do Estado, a ligação de Pahlavi com a dinastia Pahlavi gera resistência. Um episódio marcante foi a referência a um protesto em Los Angeles contra o regime iraniano, onde manifestantes pró-Pahlavi entraram em conflito com outros que exibiam a faixa “Não ao regime, não ao Xá. EUA: não repitam 1953”.
O Fantasma de 1953 e a Divisão da Oposição
A menção a 1953 remete ao golpe de Estado orquestrado pelos EUA e Reino Unido, conhecido como “Operação Ajax”, que derrubou o primeiro-ministro eleito democraticamente, Mohammed Mossadegh. Mossadegh havia nacionalizado as reservas de petróleo iranianas, desagradando o Reino Unido. O golpe, apoiado pelos aiatolás na época, é visto como um ponto de virada para o autoritarismo da dinastia Pahlavi.
Apesar de muitos no exílio apoiarem sua reivindicação ao trono, outros setores da oposição iraniana, como mencionado por analistas, questionam se ele é a figura ideal para liderar o país. A complexa história do Irã, marcada por intervenções estrangeiras e lutas internas, continua a moldar o cenário político atual, com Reza Pahlavi buscando seu espaço em meio a um legado controverso.