PF Revela: Daniel Vorcaro Usava Falsificação e Pressão para Censurar Notícias sobre o Master
Uma investigação da Polícia Federal (PF) trouxe à tona um esquema complexo orquestrado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, com o objetivo de censurar notícias desfavoráveis ao Banco Master. A descoberta revela que Vorcaro, e seus associados, teriam utilizado métodos ilícitos para silenciar a imprensa e controlar a narrativa pública sobre seus negócios.
As apurações indicam que um dos focos de preocupação de Vorcaro eram as reportagens que pudessem prejudicar a imagem ou as operações do Banco Master. Para isso, foram empregadas táticas que iam desde a intimidação direta de jornalistas até a falsificação de documentos oficiais para solicitar a remoção de conteúdos em plataformas digitais.
Segundo a ordem de prisão do empresário, o ministro André Mendonça detalha como Felipe Mourão, que tentou suicídio após ser preso e entrou em protocolo de morte cerebral, atuava na articulação dessas medidas. Mourão forjava documentos, simulando solicitações de órgãos públicos, para requisitar plataformas digitais a removerem conteúdos ou suspenderem perfis que contrariassem os interesses de Vorcaro. Conforme informações divulgadas pela PF, essa atuação envolvia o envio de comunicações institucionais sem validação formal, visando obter dados de usuários ou suprimir informações consideradas prejudiciais ao grupo. A investigação aponta que esses atos foram incluídos no núcleo de “intimidação e obstrução de justiça”.
O Mecanismo de Censura e a Tentativa de Silenciar a Imprensa
A investigação da PF detalha que Felipe Mourão se valia de expedientes que simulavam solicitações oficiais de órgãos públicos. O objetivo era acionar canais de atendimento destinados a autoridades, com o intuito de obter dados de usuários ou promover a retirada de conteúdos considerados prejudiciais aos interesses do grupo Banco Master. Essa prática, segundo a PF, demonstra um padrão de uso da intimidação como forma de gestão de conflitos.
Essa estratégia de remoção de conteúdo, embora tenha se tornado mais comum nos últimos anos por pressão de órgãos como o STF e o TSE, ganhou contornos criminosos na atuação de Mourão. A PF aponta que ele falsificava requisições em nome de um órgão público para conseguir a remoção de conteúdo ou a suspensão de usuários que incomodassem Daniel Vorcaro.
Mensagens Revelam Plano para Fechar Site de Notícias e Incluir em Inquérito
Em mensagens obtidas pela investigação e publicadas pelo jornal O Globo, Daniel Vorcaro demonstrava intenção de silenciar o site de notícias Diário do Centro do Mundo (DCM). Em outubro de 2024, Vorcaro escreveu a Felipe Mourão: “Vão entrar no processo [das] fake news. Vou fechar esse site. Manda deixar a matéria. Esses otários”.
Vorcaro discutia uma parceria com o DCM para evitar a publicação de matérias negativas para o Banco Master. Em outra mensagem, ele expressou: “Vamos por PF nesses caras. Não são sérios. Eu fazendo proposta parceria. Isso não existe.” A Gazeta do Povou questionou o ministro Alexandre de Moraes sobre o envolvimento de Vorcaro em pedidos para inclusão do DCM no inquérito das fake news, mas não obteve resposta.
O DCM, por sua vez, publicou nota afirmando que não recebeu recursos, pagamentos ou qualquer benefício das pessoas investigadas e não possui relação com os fatos apurados. A defesa de Vorcaro negou as acusações, afirmando que o empresário sempre colaborou com as investigações e confia no esclarecimento dos fatos.
A “Turma” de Vorcaro e o Planejamento de Ações Contra Jornalistas e Autoridades
A investigação também descreve a atuação de um grupo ligado a Daniel Vorcaro, conhecido como “A Turma”, responsável por um aparato paralelo de vigilância, inteligência clandestina e intimidação privada. Este grupo monitorava e levantava informações sobre alvos considerados problemáticos, recebendo cerca de R$ 1 milhão por mês para financiar suas operações.
As mensagens interceptadas indicam que o grupo realizava acompanhamento físico de alvos e discutia possíveis ações de intimidação. Em um dos diálogos citados na decisão do ministro André Mendonça, Vorcaro manifesta o desejo de agredir o jornalista Lauro Jardim, do O Globo, sugerindo simular um assalto. Embora hipóteses de violência e sequestro tenham sido mencionadas, a investigação aponta que as ações mais extremas não chegaram a ser executadas.
O jornal O Globo repudiou veementemente as ameaças contra o colunista Lauro Jardim, destacando que a ação visava “calar a voz da imprensa”. A defesa de Vorcaro, em nota posterior, afirmou que o empresário jamais teve intenção de intimidar ou ameaçar jornalistas e que suas mensagens foram tiradas de contexto, ocorrendo em caráter privado como desabafo, sem objetivo de ameaça ou violência.
Suspeitas de Acesso a Dados Restritos e Influência na Narrativa Pública
As apurações da PF indicam que o grupo “A Turma” também operava uma estratégia digital para influenciar a narrativa pública. Isso incluía ações para derrubar conteúdos negativos na internet, produzir material favorável ao banco e mobilizar influenciadores. Há ainda indícios de acesso indevido a bases de dados restritas da Polícia Federal, do Ministério Público e da Interpol, o que teria permitido ao grupo monitorar investigações e antecipar movimentos de autoridades.
O ministro André Mendonça concluiu que a atuação do grupo representava risco à ordem pública e à segurança institucional, justificando as medidas cautelares impostas. O caso segue sob investigação no Supremo Tribunal Federal, com desdobramentos que podem impactar o setor financeiro e a liberdade de imprensa no Brasil.