A luta de uma tia por justiça e dignidade para o sobrinho órfão de vítima de feminicídio em Minas Gerais.

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, deveria ser um momento de reflexão sobre conquistas e desafios femininos. Contudo, para muitas famílias brasileiras, a data é marcada pela dor e pela urgência de lidar com a violência que ceifa vidas e destrói lares.

Em Santa Cruz de Minas, a história de Silvânia da Conceição ilustra essa dura realidade. Ela busca incansavelmente pelo atestado de óbito de sua irmã, Tamara Rayani da Conceição, desaparecida em 2024 e considerada vítima de feminicídio. Sem o corpo e sem a conclusão da justiça, a vida de Tamara se transformou em uma espera dolorosa.

Essa saga burocrática, conforme divulgado pelo g1, impacta diretamente o filho de Tamara, um adolescente de 13 anos, que agora está sob os cuidados de Silvânia. A falta do documento impede o acesso a direitos básicos, como a pensão federal destinada a órfãos do feminicídio, evidenciando as múltiplas feridas deixadas por essa forma brutal de violência.

Um ano de angústia e busca por respostas

Silvânia Cristian da Conceição, de 52 anos, vive há mais de um ano uma rotina de angústia. Ela não pôde realizar um velório ou sepultamento para a irmã, Tamara Rayani da Conceição, que desapareceu em 23 de outubro de 2024. A polícia considera o caso um feminicídio, mas a ausência do corpo e a lentidão do processo judicial impedem a emissão do atestado de óbito.

Tamara, de 33 anos, vivia em São João del Rei e mantinha um relacionamento com Ivo Leite da Silva, que, segundo Silvânia, apresentava comportamento possessivo. Na véspera do desaparecimento, Tamara havia decidido terminar o relacionamento, uma decisão que, segundo a irmã, não foi aceita pelo companheiro.

Suspeito foragido e evidências que não bastam

A irmã relata que o suspeito, Ivo Leite da Silva, teria confessado o crime a familiares e afirmado ter ocultado o corpo. Desde então, ele está foragido. A polícia encontrou o carro de Ivo em Sacramento, a cerca de 500 km de distância, e um para-choque do veículo com vestígios de sangue humano foi localizado em Ritápolis, cidade vizinha ao desaparecimento.

Apesar da confissão e das evidências, a família enfrenta a burocracia. O exame de DNA, que poderia comprovar a presença de sangue de Tamara no veículo, tramita em Belo Horizonte há meses. Sem a conclusão desse exame e a localização do corpo, a emissão do atestado de óbito se torna impossível, travando qualquer avanço legal.

O impacto no filho e o apelo por agilidade

O filho de Tamara, de 13 anos, que agora vive com a tia, sofre com o trauma e as dificuldades de acesso a suporte. Sem a certidão de óbito, ele não tem direito à pensão de um salário mínimo oferecida pelo Governo Federal a órfãos do feminicídio. Silvânia descreve Tamara como uma mulher batalhadora, que trabalhava em diversas funções para sustentar o filho.

O apelo de Silvânia neste Dia da Mulher é por um olhar prioritário da Justiça. Ela enfatiza a necessidade de agilidade nos processos e critica a ineficácia de medidas protetivas em alguns casos. “Não falo só pela minha irmã, mas por tantas mulheres pobres que estão tendo as vozes apagadas pela força bruta”, desabafa.

Buscas e estatísticas alarmantes

Até o momento, Ivo Leite da Silva permanece foragido, com seu nome incluído na lista da Interpol. O g1 buscou atualizações da Polícia Civil sobre o andamento da investigação e as buscas pelo suspeito, mas não obteve retorno até o fechamento da reportagem. O caso de Tamara reflete um cenário alarmante no Brasil, onde, em 2025, o país atingiu o topo da série histórica de violência contra mulheres, com quatro feminicídios registrados por dia e dez tentativas de assassinato a cada 24 horas.

Em Juiz de Fora, o número de feminicídios consumados registrou um aumento de 200% entre 2019 e 2025, de acordo com dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). Esses números reforçam a urgência de ações eficazes e a necessidade de dar voz e dignidade às vítimas e seus familiares, como busca Silvânia em sua jornada.

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