Feminicídio em Divinópolis: A dor que dilacera uma família e o grito por justiça
O assassinato da adolescente Dandhara Kellen, de 18 anos, em Divinópolis, Minas Gerais, expõe as feridas profundas deixadas pela violência crescente contra mulheres no Brasil. A mãe da jovem, Jannes Kellen, relata o silêncio ensurdecedor, o medo constante e o trauma que desmantelou a estrutura familiar, deixando um rastro de devastação.
O Brasil registrou, em 2025, um topo histórico de violência contra mulheres, com quatro feminicídios por dia e dez tentativas de assassinato a cada 24 horas. Em Minas Gerais, a situação é alarmante, com um crescimento de 300% nos feminicídios consumados entre 2019 e 2025, segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).
A morte brutal de Dandhara Kellen, encontrada em um matagal após uma emboscada, não silenciou apenas uma jovem cheia de sonhos, mas também deixou um vazio irreparável em sua família. O principal suspeito é um adolescente de 17 anos, com quem ela mantinha um relacionamento conturbado, evidenciando os perigos de dinâmicas afetivas abusivas.
A armadilha e o eco da violência
Dandhara Kellen foi vítima de feminicídio em setembro de 2025, em Divinópolis. A jovem foi encontrada morta em um matagal, após uma emboscada orquestrada pelo adolescente de 17 anos com quem se relacionava. A mãe, Jannes Kellen, descreve o crime como uma armadilha, onde tudo indicava que o suspeito tentou simular um suicídio, com a vítima encontrada nua e com a corda de uma peça de roupa no pescoço.
As lembranças de um relacionamento abusivo assombram Jannes. Ela recorda que o suspeito já havia agredido Dandhara na porta da escola, com um chute no rosto. Nos cadernos da filha, encontrou declarações de amor ao agressor, o que a leva a crer em uma dependência emocional. “Na minha visão, ela era refém de um sentimento que achava que era amor”, desabafou a mãe.
Segundo a Sejusp, ambos os adolescentes suspeitos do crime já estiveram em cumprimento de medida de internação no sistema socioeducativo de Minas Gerais em 2025. A pasta, no entanto, não divulgou mais detalhes para preservar a integridade dos jovens, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
O silêncio que devasta e o trauma que paralisa
O impacto da perda de Dandhara Kellen foi devastador para a família. “É um buraco, um silêncio. Não ter ela mais. A casa ficou vazia”, descreve Jannes. O irmão mais novo da vítima, João Henrique, de 12 anos, passou a apresentar mudanças de comportamento, com falta de atenção na escola e retraimento, necessitando de atendimento psicológico.
A avó de Dandhara, com quem a jovem morava desde pequena, também está profundamente abalada. “Minha mãe está traumatizada, com medo, não aceita ajuda. Meu irmão mais novo também se fechou. Eu e toda minha família fomos destruídos, fomos devastados”, relatou Jannes, com a voz embargada.
Jannes, que trabalha com vigilância armada patrimonial, retornou ao serviço 20 dias após o crime, buscando em sua rotina um refúgio para não sucumbir à dor. “Ficar em casa seria pior. Trabalhar é mais um motivo para manter minha cabeça no lugar. Ainda assim, o choro é frequente.”
Sonhos interrompidos e o medo que persiste
Dandhara Kellen era uma jovem focada nos estudos e nutria o sonho de prestar concurso público e ser mãe. Ela completaria 19 anos em 17 de março. Sua mãe tenta honrar sua memória buscando inspiração em seus objetivos. “Eu tento me aproximar dela estudando, porque era o sonho dela. Dessa forma penso que estou dando um novo sentido à vida, sendo que o sentido da vida foi embora”, expressou.
O medo se tornou um companheiro constante para Jannes. Ela instalou câmeras em sua residência, receosa com as possíveis ações do agressor. “Ela levou ele na minha casa, na casa da minha mãe. Não sei do que mais ele pode ser capaz. Ainda temos que conviver com medo dele, sem nem saber quem é direito.”
Jannes ampliou um receio antigo sobre a segurança de suas filhas. “Já tinha medo de colocar um homem dentro de casa com uma filha adolescente. Agora, mais ainda. Se eu for namorar um dia, será cada um na sua casa”, afirmou.
Um grito contra a cultura do machismo
Para Jannes, o feminicídio é um reflexo de uma cultura de machismo e ego que precisa ser enfrentada com urgência. “Não está tendo amor ao próximo mais. O mal existe e está gritando na sociedade. A mulher não pode calar. No primeiro grito tem que cortar na raiz.”
A mãe de Dandhara entregou sua dor a Deus, acreditando que os culpados pagarão. “Pela fé que eu tenho, eles vão pagar. Ele tem uma família também.” Contudo, a revolta é constante. “Eu me pergunto: por que comigo? A dor que sinto não desejo para ninguém.”
A psicóloga Marina Saraiva complementa que, do ponto de vista psicológico e social, feminicídios não são surpresas, mas sim resultado de uma cultura que historicamente coloca mulheres em posição de vulnerabilidade. “Enquanto tratarmos esses casos apenas como tragédias individuais, sem enfrentar as estruturas que os permitem, o ciclo de violência tende a se repetir, a barbárie tende a crescer”, destacou.
Dados da Sejusp revelam que em 2024 foram registrados 248 feminicídios consumados e 169 tentados em Minas Gerais. Em 2025, foram 177 casos consumados e 207 tentados. Em Divinópolis, a cidade é a mais perigosa para mulheres da 7ª Região Integrada de Segurança Pública (Risp).
Jannes deixa um apelo às mulheres: “Se priorizem. Não adianta pensar que não vai acontecer. Pode acontecer. E quando acontece, destrói tudo.” A história de Dandhara é um lembrete doloroso da urgência em combater a violência de gênero e proteger a vida das mulheres.