Japão, EUA e Jamaica lideram medidas extremas contra o turismo excessivo, com barreiras físicas, impostos salgados e seguros inovadores para gerenciar o fluxo de visitantes.

O florescer das cerejeiras no Japão, uma visão idílica, tem gerado dores de cabeça para autoridades locais. O cancelamento do festival anual de sakura em Fujiyoshida, que atraía 200 mil visitantes para uma cidade de 44 mil habitantes, é um reflexo do crescente incômodo com o turismo excessivo. Moradores denunciaram lixo, invasão de propriedades e desrespeito, forçando medidas drásticas.

O Japão, que recebeu um recorde de 43 milhões de visitantes em 2023, tem implementado táticas para conter o avanço desordenado. A construção de barreiras físicas para impedir fotos indesejadas do Monte Fuji e restrições em áreas históricas de Kyoto, como o distrito de Gion, demonstram a busca por controle. A cidade também investe em tecnologia, com ferramentas de inteligência artificial para prever congestionamentos e aplicativos que promovem rotas alternativas.

A Europa, por sua vez, prevê um aumento de 1,8 bilhão de voos internacionais até 2030, pressionando governos a gerenciar a superlotação. Medidas como controle de multidões por IA, barreiras físicas e a cobrança triplicada de ingressos para estrangeiros já são realidade em alguns locais. O objetivo é espalhar os turistas, melhorar o comportamento e incentivar visitas em períodos de menor movimento, sem frear completamente o setor.

As informações foram divulgadas por diversas fontes, incluindo reportagens da BBC e comunicados de órgãos de turismo locais.

Japão: Da barreira física em Fujikawaguchiko às ferramentas digitais em Kyoto

O Japão tem sido palco de ações contundentes. Em Fujikawaguchiko, uma barreira física foi erguida para impedir que turistas subissem em telhados para fotografar o Monte Fuji. Kyoto, conhecida por suas gueixas, proibiu fotos delas e restringiu o acesso a certas vielas em Gion. A cidade também lançou o aplicativo Smart Navi, que oferece atualizações em tempo real sobre aglomerações, e a iniciativa Hidden Gems, que divulga seis distritos menos turísticos.

Kousaku Ono, gerente da Divisão de Promoção do Turismo Sustentável de Kyoto, enfatizou que não há uma solução única, mas que o objetivo é proteger os cidadãos sem prejudicar a experiência do visitante. Operadoras de turismo, como a Inside Travel Group, já adaptam seus roteiros, focando em regiões menos exploradas do Japão para distribuir o fluxo turístico.

Estados Unidos: Taxas elevadas para estrangeiros nos Parques Nacionais

Nos Estados Unidos, a estratégia adotada foca no aspecto financeiro. Em 2026, uma sobretaxa de US$ 100 (aproximadamente R$ 520) foi implementada para visitantes internacionais em 11 parques nacionais populares, como Yellowstone e Grand Canyon. O passaporte anual, que cobre todos os locais federais de recreação, agora custa US$ 250 (cerca de R$ 1,3 mil) para não residentes, três vezes o valor cobrado de cidadãos americanos.

Essa política, ordenada pelo Departamento do Interior, visa reduzir a superlotação nos 25 parques mais visitados, que concentram metade das visitas totais. No entanto, alguns especialistas, como Kevin Jackson da EXP Journeys, questionam a eficácia da medida, argumentando que o aumento do preço representa uma parcela pequena do custo total da viagem para muitos turistas internacionais, que podem simplesmente optar por parques menos conhecidos.

Dulani Porter, vice-presidente executiva da SPARK, destaca que o turismo excessivo é uma questão sistêmica, ligada a fatores como capacidade de infraestrutura e padrões de viagem domésticos, e que a precificação sozinha não resolverá o problema. Ela também alerta para o impacto econômico nas comunidades vizinhas, que dependem significativamente da contribuição dos visitantes internacionais.

Jamaica e Maiorca: Inovação e IA para um turismo mais equilibrado

A Jamaica inovou ao lançar, em parceria com a JetBlue e a WeatherPromise, um seguro contra chuva para pacotes turísticos até o final de novembro. Caso as chuvas ultrapassem um limite considerado excessivo, os viajantes segurados recebem reembolso, incentivando visitas durante a baixa temporada e a estação chuvosa. A iniciativa visa dar mais confiança aos turistas para visitar a ilha caribenha durante todo o ano.

Na ilha espanhola de Maiorca, a inteligência artificial é a aposta para gerenciar o fluxo turístico. Uma plataforma baseada em IA, a ser integrada ao novo website do turismo local, usará dados em tempo real para orientar visitantes sobre os melhores horários e sugerir alternativas menos congestionadas, como oficinas de artesanato e visitas a vinhedos. O objetivo é expandir o turismo para além das praias, promovendo experiências culturais e gastronômicas.

Guillem Ginard, presidente da Fundação para o Turismo Responsável de Maiorca, explicou que a Plataforma Inteligente de Destinos (PID) integra mobilidade, acomodações e recursos para antecipar fluxos e melhorar a experiência do visitante. A campanha “Ca Nostra” (Nossa Casa) também incentiva visitantes e moradores a tratar a ilha com respeito e cuidado.

Copenhague: Incentivo ao bom comportamento com programa de recompensas

Copenhague, capital dinamarquesa em rápido crescimento turístico, está experimentando com o programa CopenPay. Lançado em 2024, o sistema recompensa visitantes por ações sustentáveis, como coletar lixo em canoas ou ir a museus de bicicleta. Mais de 30 mil pessoas já participaram, com um aumento de 59% no aluguel de bicicletas. Cerca de metade dos participantes afirmam buscar experiências diferentes e exclusivas, e sete em cada dez relatam ter adotado novos hábitos sustentáveis em casa.

O sucesso do modelo Copenhague atraiu o interesse de mais de 100 destinos globais, incluindo Berlim e a Normandia, que já estudam a implementação de programas similares. Rikke Holm Petersen, diretora da Wonderful Copenhagen, ressaltou que muitos participantes expressaram o desejo de que todas as cidades adotassem essa iniciativa, evidenciando o potencial de engajamento e mudança de comportamento gerado pela abordagem.

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