Samba-enredo em honra a Lula gera polêmica e críticas por uso de verba pública

A folia do Carnaval do Rio de Janeiro pode ganhar um capítulo inusitado este ano, com a Acadêmicos de Niterói apresentando um samba-enredo que muitos já classificam como uma “vergonha alheia” global. O tema, “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, é uma exaltação direta ao presidente em exercício, utilizando recursos públicos.

A escola, que desfila no Grupo Especial, optou por uma narrativa que omite passagens controversas da biografia de Lula, como os escândalos do mensalão e da Lava Jato, além de períodos na prisão e recentes investigações. A letra recicla slogans de campanha eleitoral, pintando um retrato quase messiânico do presidente.

A controvérsia ganha força ao se observar a origem do financiamento. A Acadêmicos de Niterói recebeu R$ 1 milhão da Embratur, autarquia do governo federal, além de R$ 4,4 milhões da prefeitura de Niterói e verbas estaduais. Essa destinação de fundos públicos para autopromoção política já resultou em representações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Tribunal de Contas da União (TCU).

Propaganda eleitoral disfarçada e desvio de finalidade

Técnicos do TCU apontaram um claro desvio de finalidade no uso dos recursos públicos, que deveriam ser destinados a outras finalidades, e não à exaltação de uma autoridade em exercício. A legenda “sem mitos falsos, sem anistia”, presente no samba, é vista como um ataque direto ao ex-presidente Jair Bolsonaro e aos eventos de 8 de janeiro.

A crítica central é que o enredo ignora completamente os aspectos negativos da trajetória de Lula, focando em uma imagem blindada de escândalos e apresentando-o como um símbolo de coragem e soberania. Essa abordagem é vista por muitos como uma propaganda política antecipada, configurando improbidade administrativa.

Comparação com a Idade Média e críticas de especialistas

A apresentação do samba-enredo ao próprio Lula, que teria se emocionado, remete a uma dinâmica da Idade Média, com os “bobos da corte” competindo para bajular o monarca. A atitude do presidente em aceitar e, de certa forma, incentivar tal louvor com dinheiro público tem sido duramente criticada.

Gleisi Hoffmann, presidente do PT, minimizou as críticas, classificando-as como “puro preconceito”. No entanto, o jornalista Marcos Tosi, em análise, sugere que deixar a “pantomima” acontecer pode ser a maior “consagração da vergonha alheia”, um espetáculo que reflete uma “república das bananas”.

O risco da vaia histórica e o erro estratégico

Tosi ecoa a máxima de Napoleão Bonaparte, “Nunca interrompa seu inimigo enquanto ele estiver cometendo um erro”. A aposta é que este samba-enredo, ao invés de ser um trunfo, pode se tornar a “música de despedida” de Lula, culminando em uma vaia histórica na Sapucaí.

A estratégia da Acadêmicos de Niterói, ao criar um samba que beira o ridículo pela bajulação, financiado com verba pública, pode se voltar contra o próprio homenageado. A falta de constrangimento em usar dinheiro do contribuinte para financiar o próprio louvor é um dos pontos mais criticados por especialistas e pela oposição.

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