PF desvenda esquema milionário de fraudes a licitações e financiamento de campanhas no Ceará, com envolvimento de deputado federal e ex-prefeito.

Um extenso relatório da Polícia Federal (PF) enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) revela um suposto esquema criminoso que teria desviado cerca de R$ 455,5 milhões. As investigações apontam para fraudes em licitações de prefeituras cearenses e financiamento ilegal de campanhas eleitorais, com a participação de um deputado federal e um ex-prefeito do estado.

O grupo criminoso seria liderado pelo ex-prefeito de Choró, Bebeto Queiroz (PSB), foragido há mais de um ano, e pelo deputado federal Júnior Mano (PSB), pré-candidato ao Senado. O esquema envolvia a negociação de emendas parlamentares e a cobrança de uma porcentagem dos recursos repassados às prefeituras aliadas.

De acordo com a PF, Bebeto Queiroz atuava como intermediário na destinação das emendas do deputado Júnior Mano para prefeituras alinhadas ao grupo. Uma “taxa” de 12% a 15% do valor das emendas ficava com o grupo criminoso. As investigações, que tiveram acesso a relatórios da Controladoria-Geral da União (CGU) e a dados de movimentação financeira, apontam para um complexo esquema de lavagem de dinheiro e compra de votos, conforme divulgado pelo g1.

Deputado Júnior Mano e ex-prefeito Bebeto Queiroz no centro das investigações

O relatório da PF detalha que Carlos Alberto Queiroz, conhecido como Bebeto, era o responsável por intermediar a destinação das emendas parlamentares do deputado Júnior Mano para prefeituras consideradas estratégicas pelo grupo. Além de direcionar os recursos, Bebeto negociava uma porcentagem, que variava entre 12% e 15% do valor total da emenda, como retorno financeiro para a organização criminosa.

As investigações indicam que Bebeto utilizava diversas empresas, muitas delas com contratos vigentes com prefeituras do interior do Ceará, para desviar recursos públicos. Esses valores eram supostamente utilizados tanto para enriquecimento ilícito quanto para financiar campanhas eleitorais de aliados, incluindo práticas como a compra de votos. Posteriormente, essas mesmas empresas conseguiam novos contratos nas prefeituras dos aliados que eram eleitos.

Em julho de 2025, Júnior Mano já havia sido alvo de uma operação da PF que investigava fraudes em licitações no Ceará. Bebeto Queiroz foi preso em novembro de 2024, antes mesmo de tomar posse como prefeito de Choró, sob suspeita de chefiar um esquema criminoso de fraudes em contratos. Apesar de ter sido solto poucos dias depois, um novo mandado de prisão foi expedido contra ele, mas ainda não foi cumprido.

Empresas suspeitas movimentaram mais de R$ 455 milhões em dois anos

O esquema investigado pela PF envolve pelo menos dez empresas suspeitas de participação. Uma análise realizada pela Controladoria-Geral da União (CGU) em 2025 identificou que nove dessas empresas receberam aproximadamente R$ 455,5 milhões de prefeituras cearenses entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025. A empresa MK Serviços, Construções e Transporte Escolar, com CNPJ 35.864.328/0001-30, destacou-se como a principal envolvida, movimentando sozinha mais de R$ 318 milhões.

Maurício Gomes Coelho, sócio-proprietário da MK Serviços, é apontado pela PF como o operador financeiro central do esquema. Anteriormente vigilante, ele teria passado a acatar imediatamente as ordens de Bebeto Queiroz, confirmando sua posição subordinada. As contas da MK Serviços eram utilizadas para pagar despesas pessoais de Bebeto, e a empresa firmou contratos vultosos com diversas prefeituras, incluindo Pacajus (R$ 37,3 milhões), Canindé (R$ 33,8 milhões) e Aquiraz (R$ 24,2 milhões).

Nova Russas, cidade natal de Júnior Mano e base política do deputado, cuja prefeita é sua esposa, Giordanna Mano, também figura entre os municípios com maior volume de repasses à MK Empreendimentos. A PF ressalta que esse modelo de recebimento de emendas e posterior obtenção de contratos por empresas ligadas ao grupo configura um “esquema de perpetuação do poder”, onde o financiamento ilícito garante a vitória de candidatos aliados em troca de contratos públicos.

Outras dez pessoas são citadas na investigação

Além do deputado federal Júnior Mano e do ex-prefeito Bebeto Queiroz, a PF cita outras dez pessoas suspeitas de envolvimento no esquema. Entre elas estão a irmã de Bebeto, Cleidiane Queiroz, apontada como gestora operacional do esquema, e Adriano Almeida Bezerra, assessor parlamentar de Júnior Mano, que teria atuado na intermediação de pagamentos e negociação de porcentagens dos recursos.

As investigações se basearam em operações da PF, relatórios de movimentação financeira e análise de dados de celulares dos suspeitos. Conversas interceptadas revelam que Bebeto orientava operadores sobre valores a serem enviados a políticos aliados e negociava a compra de votos por valores entre R$ 200 e R$ 500. O político frequentemente citava estar agindo a pedido ou em favor de Júnior Mano, visitando gestores apoiados pelo grupo e realizando transferências financeiras.

Em nota, a assessoria jurídica do deputado Júnior Mano afirmou que a investigação da PF “nada encontrou de relevante contra o deputado” e lamentou o “vazamento seletivo de informações sigilosas”. A defesa de Bebeto Queiroz, que segue foragido, declarou que só se manifestará nos autos do processo.

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