Médica Ana Cláudia Quintana Arantes alerta: ‘Falar sobre a morte não poupa sofrimento, organiza o sofrimento’

A médica paliativista e escritora Ana Cláudia Quintana Arantes, autora do livro “A morte é um dia que vale a pena viver”, critica a forma como a sociedade brasileira lida com o fim da vida. Segundo ela, a cultura de evitar o assunto transforma a morte em um tabu, gerando sofrimento desnecessário e decisões tomadas às pressas. A especialista defende que a conversa aberta sobre a finitude é fundamental para uma experiência de cuidado digna.

Arantes ressalta que a maioria das pessoas não morre subitamente, mas sim doente, necessitando de cuidados contínuos. No entanto, os cuidados paliativos ainda chegam tardiamente e de forma desigual no país, apesar dos avanços na política pública. Essa lacuna, segundo a médica, é uma das principais causas de sofrimento prolongado e despedidas marcadas por dúvidas e angústias.

Em entrevista ao g1, a especialista detalha o que define uma “boa morte”, critica a abordagem da medicina diante da finitude e argumenta que reconhecer os limites da vida pode, paradoxalmente, levar a uma vivência mais plena. Conforme informação divulgada pelo g1, a médica defende que o diálogo sobre a morte é um caminho para organizar o sofrimento e garantir que os últimos dias sejam vividos com mais qualidade e significado.

A morte como dimensão negligenciada da vida

Ana Cláudia Quintana Arantes enfatiza que a morte não deve ser vista como um desvio da vida, mas como uma de suas dimensões mais negligenciadas. Ao longo de mais de duas décadas acompanhando pacientes com doenças graves, ela observou que a evitação do tema resulta em decisões apressadas, sofrimento prolongado e despedidas marcadas por incertezas. A ausência de conversa, e não a falta de recursos médicos, é o principal obstáculo.

“As pessoas não entendem que, para viver uma experiência que valha a pena, é preciso cuidado. A maioria de nós vai morrer doente e, quando isso acontece, a gente precisa saber receber cuidado e ter quem saiba oferecer. A morte vale a pena quando há esse encontro”, explica a médica.

O sofrimento emocional e a importância da conversa

A médica reconhece que o sofrimento emocional é inerente ao processo de morrer, mas argumenta que ele pode ser transformado em força. “O sofrimento existe. É triste, dá raiva, dá medo. Mas, se você não consegue colocar isso a favor da sua história, vai perder tempo. A vida não espera você entender. Viver boas memórias é importante para quem está morrendo e para quem vai ficar”, afirma Arantes.

Ela critica a cultura que evita o tema, pois isso impede as pessoas de entenderem como priorizar seu tempo. “Quando você não fala sobre a morte, perde a chance de entender melhor o que fazer com o seu tempo. Quando alguém sabe que tem pouco tempo de vida, aprende a priorizar.”

Cuidados paliativos: um direito tardio no Brasil

Apesar de o Brasil ter avançado na formalização da política pública de cuidados paliativos, o número de equipes habilitadas ainda é insuficiente para atender à demanda de uma população que envelhece rapidamente. “O problema é que muitos profissionais ainda encaram a morte como fracasso. E não é. A história da vida termina. O que importa é como se cuida desse final”, pontua a médica.

Arantes lamenta que os cuidados paliativos cheguem tarde aos pacientes, pois isso impede a construção de vínculos e a organização de decisões importantes. “Porque essa informação não circula principalmente entre os médicos. Ela chega por outras vias — matérias, novelas, experiências pessoais. As pessoas reconhecem quando uma morte foi bem cuidada e quando não foi.”

O que define uma “boa morte” e a preparação do sistema de saúde

Para Ana Cláudia Quintana Arantes, uma “boa morte” não é uma morte bonita ou fácil, mas sim uma experiência de cuidado que respeita a dignidade da pessoa. “Isso pode significar estar em casa, estar no hospital, ter ou não determinados procedimentos. O importante é que isso tenha sido conversado antes”, defende.

A médica critica a falta de preparo do sistema de saúde brasileiro para discutir diretivas antecipadas de vontade e lidar com o envelhecimento populacional. “É um país que envelhece rápido e não tem estrutura suficiente para cuidar disso. Falar de diretivas é se preparar para algo melhor, e ainda estamos lidando mal com o básico.” Ela também aponta a desigualdade social como um fator que interfere diretamente na experiência de morte, muitas vezes marcada pelo abandono.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar

A Nobreza do Amor: Cenários Deslumbrantes do RN que Roubam a Cena na Nova Novela da Globo

Rio Grande do Norte se torna palco para a nova novela das…

São José dos Campos: Sete Novos Postos de Coleta de Exames do SUS Abertos para 11 Mil Atendimentos Mensais

Sete novos postos de coleta de exames do SUS são inaugurados em…

Tragédia na BR-226: Colisão Frontal entre Moto e Caminhonete em Palmeiras do Tocantins Ceifa Duas Vidas

Acidente fatal na BR-226 em Palmeiras do Tocantins: dois homens morrem após…

Falsa Advogada Ligada ao Comando Vermelho é Presa em Teresina; Operação Revela Núcleo Político do Tráfico no AM

Operação Erga Omnes desarticula rede criminosa com tentáculos no poder em vários…