Inquérito no STF investiga possível tentativa de blindar o Banco Master com ajuda do TCU em negócios com o BRB.

Um documento encontrado em um celular apreendido com o empresário Daniel Vorcaro levantou suspeitas de uma possível tentativa de interferência em decisões oficiais. O arquivo está no foco de um inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro André Mendonça.

O material, que não possui assinatura ou autor identificado, assemelha-se a um rascunho de decisão do Tribunal de Contas da União (TCU). A minuta sugeriria ao Banco Central a interrupção de medidas relacionadas ao Banco Master, instituição comandada por Vorcaro.

A principal suspeita, segundo fontes ligadas às investigações, é de que o documento possa ter feito parte de uma rede com o objetivo de criar um caminho dentro do TCU para suspender decisões do Banco Central. Conforme informações divulgadas pela Gazeta do Povo, a defesa de Vorcaro não comenta documentos obtidos por vazamentos e afirma que o assunto está sob análise judicial.

Minuta encontrada em celular de Vorcaro detalha plano contra o Banco Central

A minuta em questão foi encontrada entre cerca de 12 mil arquivos extraídos de um dos celulares de Daniel Vorcaro. Foram identificadas duas versões do mesmo texto, criadas em agosto de 2025. O documento propõe que o Banco Central suspenda todas as decisões sobre o Banco Master e estabelece um prazo para ouvir técnicos da própria autoridade monetária.

Especialistas alertam que a existência dessa minuta, aliada a ações posteriores do Banco Central para barrar negociações entre o Master e o BRB, acende um novo alerta. A economista Regina Martins destaca que, na prática, isso pode indicar a tentativa de usar o TCU como uma instância de revisão de decisões técnicas, o que seria inadequado e sem precedentes.

O constitucionalista André Marsiglia explica que o ponto central da investigação é entender se houve uma tentativa coordenada de influenciar decisões públicas e quais responsabilidades podem surgir disso. Ele ressalta que documentos articulados fora dos canais oficiais podem indicar uma tentativa indevida de influenciar órgãos públicos.

Governo do DF e TCU: Semelhanças levantam suspeitas sobre influência

O conteúdo da minuta chamou a atenção por sua semelhança com pedidos feitos ao TCU pelo governo do Distrito Federal, comandado por Ibaneis Rocha. Na época, o Banco Master negociava a venda de títulos bilionários ao Banco Regional de Brasília (BRB), controlado pelo governo do DF.

Paralelamente, o Banco Central analisava a situação do Master, com preocupações sobre sua saúde financeira e a qualidade dos ativos negociados. O órgão regulador atuou para barrar a negociação com o BRB. Apesar dos alertas, houve movimentações para tentar reverter ou suspender a decisão do Banco Central.

O governo de Ibaneis Rocha chegou a pedir ao TCU que acompanhasse o caso e, posteriormente, solicitou a suspensão das decisões do Banco Central, com uma redação que se assemelha à minuta encontrada no celular de Vorcaro. Tais semelhanças chamaram a atenção dos investigadores e de membros da CPMI do INSS.

Críticas de órgãos de controle e riscos na operação Master-BRB

Técnicos do Ministério Público de Contas do TCU criticaram a tentativa de usar o tribunal como forma de pressionar o Banco Central. Para eles, isso seria uma maneira inadequada de tentar reverter uma decisão técnica, especialmente diante de indícios de problemas graves na operação, como possíveis fraudes e falta de comprovação de valores.

Em novembro do ano passado, o Banco Central determinou a liquidação do Master. Auditores do próprio TCU apontaram em parecer técnico que o uso da Corte de Contas poderia representar uma tentativa inadequada de reverter uma decisão técnica, o que foge à função do tribunal. Riscos elevados na operação, incluindo indícios de irregularidades, foram citados.

O caso no TCU está sob relatoria do ministro Jhonathan de Jesus. Houve discussões sobre a possibilidade de reverter a liquidação do Master, mas a medida não avançou devido a resistências internas e externas, além de pressões de outros setores. O ministro suspendeu a análise do caso até o avanço de outras investigações.

O contexto da investigação e a atuação do Banco Central

O arquivo, criado em 29 de agosto de 2025, pouco antes de uma decisão crucial do Banco Central sobre a operação Master-BRB, levanta a hipótese de uma estratégia mais ampla. A investigação busca descobrir a autoria, origem e possíveis destinatários do documento.

Apesar de detalhado, o documento não é oficial, não possui assinatura ou identificação de quem o escreveu. Não se sabe se Vorcaro recebeu o arquivo ou se ele mesmo o encaminhou. O Banco Central, ao barrar a negociação entre Master e BRB, agiu diante de preocupações com a saúde financeira da instituição de Vorcaro e suspeitas sobre a qualidade dos ativos negociados.

O Ministério Público Federal também havia alertado autoridades sobre os riscos envolvendo a compra de ativos do Master, recomendando evitar aprovações até que a segurança e a lisura da transação fossem comprovadas, especialmente por envolver recursos públicos.

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