Flávio Bolsonaro busca reduzir vantagem de Lula no Nordeste com discurso conservador focado em segurança e costumes
O senador Flávio Bolsonaro (PL) iniciou uma estratégia clara para ampliar sua base eleitoral no Nordeste, região onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) obteve forte desempenho nas eleições de 2022. A aposta do parlamentar recai sobre temas como segurança pública, combate à criminalidade e pautas de costumes, visando atrair eleitores que se sintam distantes do governo petista.
Em sua primeira agenda pré-eleitoral na região, que incluiu visitas a Natal (RN) e João Pessoa (PB), Flávio Bolsonaro reforçou a segurança pública como um eixo de diferenciação em relação ao governo federal. O discurso buscou contrapor a ideia de um “caminho da prosperidade” com o que ele chamou de um governo que “solta marginal da cadeia”.
A estratégia, segundo análises políticas, visa explorar uma possível “fissura” na hegemonia petista na região, aproveitando o desgaste do lulopetismo. Conforme informação divulgada pelo jornal O Globo, o senador defendeu o endurecimento das leis penais e o tratamento de facções criminosas como organizações terroristas, além de direcionar fala ao eleitorado feminino explorando a pauta da violência contra a mulher.
Discurso de “Lei e Ordem” contra o crime organizado
Flávio Bolsonaro adotou um tom mais duro contra o crime organizado durante sua passagem pelo Nordeste. Ele defendeu o endurecimento das leis penais, com a proposta de prisão prolongada para lideranças criminosas. O senador afirmou que facções como o PCC e o Comando Vermelho deveriam ser tratadas como organizações terroristas, argumentando que “marginais que comandam organizações criminosas […] têm que ficar mofando na cadeia”.
Essa linha de argumentação, segundo o cientista político Paulo Kramer, encontra respaldo em críticas mais amplas à condução das políticas de segurança nos governos alinhados ao PT no Nordeste. Kramer aponta que há uma visão considerada permissiva em relação à criminalidade, o que contribui para o agravamento da insegurança na região.
O especialista sustenta que essa abordagem “põe em risco a segurança do cidadão” ao priorizar, em sua visão, uma agenda de direitos humanos voltada a criminosos. Kramer também ressalta que esse cenário impacta de forma mais intensa as camadas mais pobres da população, que seriam as mais prejudicadas e vulneráveis diante da “lei do cão” imposta pela violência das facções criminosas.
Apelo ao eleitorado feminino e pautas do cotidiano
O senador também direcionou parte de sua fala ao eleitorado feminino, explorando a pauta da violência contra a mulher. Flávio Bolsonaro afirmou que um eventual governo alinhado ao seu campo político buscaria prender agressores com mais rapidez e endurecer punições. Ele questionou se as eleitoras desejam “um governo que se preocupe de verdade com as mulheres? Que trabalhe para colocar agressor de mulher no mesmo dia preso?”.
Além das questões de segurança e costumes, o pré-candidato do PL buscou dialogar com pautas econômicas e do cotidiano, como emprego e custo de vida. Ele defendeu a redução de impostos e menos burocracia para pequenos empreendedores, questionando se os eleitores querem “um governo que vai reduzir imposto, que vai facilitar a vida de quem quer trabalhar?”.
Adaptação ao público e fortalecimento de palanques no Nordeste
A forma como Flávio Bolsonaro se apresentou também indicou uma tentativa de adaptação ao público local. Ele apareceu vestindo uma camiseta amarela com a frase “Nordeste é solução”, em um gesto simbólico para suavizar a rejeição na região e reforçar a mensagem de aproximação com o eleitor nordestino.
Para o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a movimentação de Flávio Bolsonaro segue na esteira do desgaste do lulopetismo no Nordeste. Gomes aponta que fatores como frustração com políticas públicas, aumento do custo de vida e escândalos recentes contribuem para esse cenário, “a imagem do lulopetismo fica desgastada”.
O PL aposta em palanques mais organizados para a campanha de Flávio Bolsonaro no Nordeste, buscando um melhor desempenho em relação ao pleito de 2022. A expectativa é contar com aliados de outros partidos e filiar políticos de peso na região, como o senador Efraim Filho (PB) e o ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga, que foram filiados ao PL para disputas eleitorais na Paraíba.
Especialistas veem estratégia de reduzir diferença, não necessariamente vencer
O cientista político Adriano Cerqueira, professor do Ibmec de Belo Horizonte, avalia que a movimentação de Flávio Bolsonaro na região segue uma estratégia já testada nas eleições anteriores: reduzir a diferença de votos de Lula no Nordeste, ainda que sem necessariamente vencer na região. “O Flávio Bolsonaro continua a estratégia do pai dele”, afirma.
Segundo Cerqueira, o cenário atual pode favorecer essa tentativa, especialmente por conta de uma mudança na percepção do eleitor nordestino. Ele aponta que, na eleição passada, muitos votantes projetaram que Lula repetiria o desempenho de seus governos anteriores, “Eles lembraram do Lula de até 2010 e imaginaram que ele faria aquilo de novo, só que as condições para isso não foram dadas”, diz.