Restrição de visitas a Bolsonaro impulsiona Flávio na definição de candidaturas ao Senado, fortalecendo discurso contra o STF.
A limitação de visitas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, imposta pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), reconfigurou a dinâmica da direita. Com o ex-presidente temporariamente afastado do contato direto com aliados, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emerge como figura central nas articulações políticas, assumindo o protagonismo na definição de candidaturas ao Senado e na condução da estratégia eleitoral do grupo para 2026.
Essa mudança ocorre em um momento crucial para a direita. A proximidade das eleições eleva a definição de candidaturas ao Senado a uma prioridade absoluta, dada a percepção de que a Casa terá um papel central na relação entre os Poderes nos próximos anos. A ausência física de Jair Bolsonaro nas articulações diretas acelera a transferência de responsabilidades para Flávio.
A decisão do ministro do STF de restringir as visitas aos filhos e advogados de defesa, ao transferir o ex-presidente para a prisão domiciliar, intensifica o papel de Flávio. Integrantes do PL já observavam o crescimento do senador nas decisões estratégicas, especialmente após o avanço de seu nome em pesquisas eleitorais. Segundo o instituto Paraná Pesquisas, em um eventual segundo turno presidencial, Flávio Bolsonaro teria 45,2% das intenções de voto, superando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 44,1%.
Flávio Bolsonaro assume a linha de frente das articulações políticas
Com as restrições impostas a Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro atua como o principal elo entre o ex-presidente e lideranças partidárias, governadores e pré-candidatos ao Senado. A estratégia dentro do PL prioriza candidaturas consideradas de confiança, evitando concessões ao Centrão na disputa pelas cadeiras senatoriais. Flávio Bolsonaro explicou que muitos nomes já foram escolhidos, e agora estão em análise de pesquisas e conversas com lideranças, sempre com o aval do pai.
A avaliação é que a formação de uma bancada ideologicamente alinhada será determinante para avançar em pautas sensíveis, especialmente aquelas relacionadas ao papel do Judiciário e ao equilíbrio entre os Poderes. Mesmo com as restrições, aliados afirmam que Jair Bolsonaro continuará influenciando decisões por meio de interlocutores próximos, como familiares e advogados, transmitindo orientações e alinhamentos estratégicos de forma indireta.
O Senado como palco estratégico para a direita
Para o cientista político Magno Karl, o protagonismo do Senado na estratégia da direita explica a centralidade da definição das candidaturas. Ele ressalta que o Senado concentra poderes que o Congresso como um todo não possui. Para uma direita que identifica o excesso de poder judicial como um problema brasileiro, controlar o Senado representa a via institucional para influir sobre o perfil do Estado sem depender da Presidência.
O deputado Sanderson, pré-candidato ao Senado pelo Rio Grande do Sul, reforça essa visão, afirmando que é fundamental manter o plano original de lançar apenas candidatos de confiança de Bolsonaro, sem concessões ao Centrão no Senado. Marcos Pollon, escolhido para ser candidato ao Senado pelo Mato Grosso do Sul, descreveu a situação como uma perseguição judicial contra um ex-presidente, que mesmo após um atentado e com sequelas, segue sendo alvo de um cerco implacável.
Discurso crítico ao STF ganha força no eleitorado
A estratégia da direita em focar no Senado é impulsionada por uma mudança perceptível no humor do eleitorado. A crítica ao STF ganhou destaque após o escândalo do Banco Master, influenciando diretamente o posicionamento político de parte dos eleitores. Uma pesquisa Genial/Quaest de março revelou que 66% dos brasileiros consideram importante eleger candidatos ao Senado comprometidos com a análise de pedidos de impeachment de ministros do STF.
O apoio a essa pauta não se restringe à direita, com 54% dos eleitores lulistas e 52% da esquerda não lulista defendendo esse posicionamento. A mesma pesquisa indica que 72% dos brasileiros avaliam que o STF tem “poder demais”, e 59% consideram que a Corte atua como aliada do governo federal. Dentro do PL, esse sentimento é visto como uma oportunidade a ser explorada nas disputas ao Senado, considerado o principal canal institucional para responder a essa insatisfação, devido às suas competências em sabatinas de ministros e análise de pedidos de impeachment.
Senado concentra competências decisivas para influenciar o poder
O cientista político Elias Tavares explica que o protagonismo do Senado na estratégia da direita é resultado de fatores institucionais e do calendário eleitoral. A renovação de dois terços das cadeiras em 2026 abre uma janela para mudar a correlação de forças na Casa. Tavares destaca que o Senado concentra competências decisivas, como a sabatina e aprovação de autoridades, incluindo ministros do STF e do Banco Central, além da condução de processos de impeachment, o que eleva seu peso político em um momento de tensão entre os Poderes.
No caso de ministros do Supremo, o rito de impeachment depende exclusivamente do Senado, reforçando o interesse político em aumentar a presença na Casa. Tavares aponta que uma eventual maioria no Senado teria capacidade relevante de influenciar o STF, não necessariamente por um confronto direto, mas pela capacidade de pressão em sabatinas, indicações e tensionamento institucional.