PF suspeita que provas sumiram com vazamento de informações sigilosas em operações do caso Master
Investigadores da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) trabalham para identificar a origem de possíveis vazamentos de informações no caso Master. A suspeita é que dados sigilosos tenham sido antecipados antes da deflagração de fases da operação ‘Compliance Zero’, que apura um esquema bilionário de fraudes financeiras.
O possível vazamento ganhou força após uma série de episódios atípicos durante o cumprimento de medidas judiciais. A principal preocupação é que a antecipação indevida de dados possa ter comprometido a eficácia das ações e até levado ao sumiço de provas importantes.
As suspeitas mais fortes recaem sobre as duas primeiras fases da operação. A investigação busca determinar se houve falhas institucionais, atuação de agentes internos ou interferências externas que permitiram o acesso antecipado a informações sigilosas. Conforme apurado pela Gazeta do Povo, o comprometimento do sigilo pode ter afetado diretamente a coleta de provas, como a apreensão de dispositivos eletrônicos e documentos.
Primeira Fase: Prisão em Aeroporto Levanta Suspeitas Iniciais
O primeiro alerta surgiu em novembro de 2025, durante a primeira fase da operação, focada em um esquema de venda de carteiras de crédito sem lastro e na venda do banco Master. Daniel Vorcaro, controlador da instituição, foi preso no Aeroporto de Guarulhos enquanto se preparava para embarcar em um voo internacional para os Emirados Árabes.
Para os investigadores, a prisão de Vorcaro no momento em que se preparava para deixar o país levantou as primeiras suspeitas de que os alvos da operação poderiam ter sido avisados previamente. Embora a defesa alegue que não houve tentativa de fuga e que a viagem era a trabalho para fechar a venda do banco, o episódio foi considerado um indício relevante.
Na época, o caso estava sob relatoria do ministro Dias Toffoli, no Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou as medidas judiciais iniciais. A defesa de Daniel Vorcaro tem reiterado que o empresário sempre colaborou com as autoridades e nega qualquer obstrução às investigações. Vorcaro estaria em negociações para uma colaboração premiada.
Segunda Fase: Diligências Frustradas e Sinais Evidentes de Vazamento
Os indícios de vazamento se tornaram mais consistentes na segunda fase da operação, em janeiro de 2026, também sob relatoria de Toffoli. Nesta etapa, a PF ampliou o foco para fundos de investimento usados para movimentar recursos e disfarçar prejuízos.
Foram cumpridos 42 mandados de busca e apreensão e bloqueados mais de R$ 5,7 bilhões em bens. No entanto, diversas diligências foram consideradas frustradas ou parcialmente prejudicadas, com sinais claros de que os investigados haviam deixado os locais pouco antes da chegada da polícia.
Em vários endereços, foram encontrados imóveis esvaziados, quartos desarrumados e ausência de equipamentos eletrônicos. Testemunhas apresentaram justificativas inconsistentes. O empresário Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, e o investidor Nelson Tanure foram localizados em aeroportos no mesmo período, prestes a embarcar, o que para os investigadores reforçou a hipótese de antecipação de informações sigilosas.
Outro ponto de atenção foi a presença antecipada de advogados em alguns locais antes mesmo da chegada da polícia, em endereços onde os alvos não estavam. A PF não comenta investigações em curso, mas fontes indicam que esses fatores levaram à conclusão de um possível comprometimento do sigilo operacional.
Terceira Fase: Mudança de Relatoria e Novas Hipóteses
Em fevereiro de 2026, o ministro Dias Toffoli deixou a relatoria do caso devido a um vínculo societário com uma empresa ligada a fundos do entorno de Vorcaro. O processo foi redistribuído ao ministro André Mendonça.
A terceira fase da ‘Compliance Zero’ ocorreu em março de 2026, sob a relatoria de Mendonça, apesar da posição contrária da PGR. Nesta etapa, Daniel Vorcaro foi preso novamente, junto com outros investigados por ameaças e coação de testemunhas. Foram bloqueados mais de R$ 22 bilhões em bens e afastados dois servidores do Banco Central.
A investigação avançou para suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção, invasão de sistemas e monitoramento ilegal de autoridades e jornalistas. Foi identificado um grupo denominado “A Turma”, que atuava para proteger interesses do Banco Master, funcionando como uma estrutura paralela de monitoramento e pressão, com vigilância e intimidação de adversários.
A PF identificou indícios de acesso indevido a bases de dados sigilosas de órgãos como a própria PF, PGR, Justiça Federal e Interpol. Um policial federal aposentado chegou a ser preso sob suspeita de participar do esquema. A prioridade agora é identificar a origem dos vazamentos, pois novas etapas da operação são esperadas.
O Impacto na Coleta de Provas e Futuras Investigações
O levantamento sobre possíveis vazamentos corre paralelamente às investigações principais da ‘Compliance Zero’. Caso irregularidades sejam confirmadas, novos inquéritos podem ser abertos para responsabilizar os envolvidos.
A suspeita de que provas sumiram devido a vazamentos é uma preocupação central. A análise busca determinar se houve falhas institucionais, atuação de agentes internos ou interferências externas que facilitaram o acesso antecipado a informações confidenciais.
O comprometimento do sigilo operacional pode ter afetado diretamente a coleta de provas essenciais, como a apreensão de dispositivos eletrônicos e documentos. A investigação sobre o vazamento visa garantir a integridade do processo judicial e a correta apuração do esquema bilionário.