O Fim da Meritocracia? Entenda a “Herançocracia” e a Dependência do Patrimônio Familiar

A ideia de que o trabalho árduo e o mérito garantem o sucesso financeiro parece cada vez mais distante para muitos jovens. A historiadora britânica Eliza Filby, autora do livro “Inheritocracy” (Herançocracia), lança luz sobre um fenômeno crescente: a dependência das gerações atuais do patrimônio e do apoio financeiro dos pais para alcançar estabilidade e oportunidades.

Este conceito, que ela denomina “herançocracia”, contrapõe-se à meritocracia e sugere que o acesso ao “banco da mamãe e do papai” se tornou o principal definidor de segurança e plataforma para a vida adulta. Filby argumenta que essa dinâmica afeta profundamente a geração X e os millennials, com potencial impacto nas gerações Z e Alfa.

A especialista, em entrevista à BBC, explora como a fortuna acumulada pelos baby boomers, em um cenário pós-guerra de crescimento econômico sem precedentes, criou um sistema que beneficia desproporcionalmente aqueles com acesso a recursos familiares. Conforme informação divulgada pela BBC, Filby destaca que a meritocracia, originalmente uma sátira sobre desigualdade social, foi mal interpretada e se tornou um ideal, mascarando as verdadeiras bases do sucesso de gerações passadas.

A Origem da Meritocracia e sua Perda de Sentido

O termo “meritocracia” foi cunhado pelo sociólogo Michael Young em 1958 como uma crítica a uma sociedade onde o sucesso era justificado pelo talento e esforço, e o fracasso atribuído apenas ao indivíduo. Contudo, com o tempo, a ironia se perdeu e a expressão passou a ser usada como um elogio. Filby aponta que essa distorção é crucial para entender a frustração atual.

Ela explica que a popularidade da meritocracia entre os baby boomers se deve, em parte, ao fato de que as condições do pós-guerra, com crescimento econômico e acesso facilitado à educação superior, permitiram que muitas histórias de ascensão social se concretizassem. O investimento governamental em democratizar oportunidades, como o acesso à universidade, trouxe benefícios sociais, mas consolidou uma narrativa única de sucesso.

O Sistema Quebrado e a Ascensão do “Banco da Mamãe e do Papai”

A partir dos anos 1990, o sistema educacional, que antes oferecia um caminho para a estabilidade, começou a mostrar suas falhas. Filby observa que o valor monetário do diploma universitário diminuiu, enquanto os custos dispararam, levando muitos jovens a se endividarem por uma promessa de estabilidade que não se concretizava. Isso afetou especialmente jovens de famílias mais modestas.

A rigidez do sistema, focado em uma visão limitada de inteligência e sucesso herdada do século XIX, torna-se ainda mais problemática em uma era de inteligência artificial. Filby ressalta que a educação contínua e o treinamento no trabalho, antes responsabilidade das empresas, foram terceirizados, deixando os indivíduos mais vulneráveis.

Nesse cenário, o “banco da mamãe e do papai” emerge como uma fonte de segurança mais confiável que o próprio emprego. O fenômeno, que ganhou força após a crise financeira de 2008, vê pais e avós auxiliando filhos e netos com despesas como estudos, moradia, creches e até mesmo para fechar o mês. A autora desmistifica o estereótipo do “millennial gastador em torradas com abacate”, apontando o contexto estrutural por trás dessas dificuldades.

Solidariedade Familiar e Desigualdades Estruturais

Filby esclarece que o apoio familiar não se limita à classe média alta. Jovens de famílias da classe trabalhadora frequentemente recebem auxílio na forma de moradia, alimentação e cuidados mútuos. A solidariedade familiar se intensificou em todos os níveis de renda, com avós cuidando de netos e pais abrigando filhos adultos.

No entanto, a autora alerta que nem todas as famílias possuem recursos para oferecer esse suporte. Em uma sociedade onde a estabilidade familiar se torna crucial, fatores como divórcio, conflitos familiares ou pobreza estrutural criam desvantagens profundas. A riqueza, portanto, não se acumula mais apenas pelo salário, mas principalmente pelos bens herdados ou pelo apoio familiar.

Herançocracia e a Reconfiguração das Relações Sociais

Os efeitos da herançocracia vão além do financeiro, reconfigurando a forma como as pessoas escolhem parceiros, planejam suas vidas e entendem a segurança. Filby aponta para a tendência de casais se formarem entre pessoas com origens e recursos similares, onde o acesso ao patrimônio familiar se torna uma variável decisiva, mais do que o salário individual.

Pesquisas indicam que mais da metade da geração Z considera a compatibilidade financeira um fator central em relacionamentos. Paralelamente, a “classe média espremida”, especialmente a geração X, enfrenta a pressão de apoiar filhos adultos e pais envelhecidos. Filby prevê um período de desilusão semelhante à década de 1970, exigindo uma reformulação do contrato social.

Compreender a herançocracia, conclui Filby, não garante sua superação, mas permite a tomada de decisões mais informadas. O risco reside em ignorar essa realidade, pois quando uma sociedade perde a crença no valor do esforço, algo mais profundo que a economia começa a desmoronar.

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