Albânia pode se tornar lar do menor país do mundo com proposta inovadora para a corrente islâmica Bektashi.
O Primeiro-Ministro da Albânia, Edi Rama, anunciou em 2024 planos ambiciosos para a criação de um Estado soberano dedicado à corrente islâmica Bektashi. A iniciativa, ainda em fase de elaboração legislativa, visa ceder parte da capital, Tirana, para formar um microestado com administração própria, passaportes e fronteiras, similar ao Vaticano.
A proposta busca, segundo Rama, preservar e promover a tolerância religiosa, além de enviar uma mensagem internacional de que o islamismo não deve ser associado ao extremismo. A intenção é desmistificar a religião e combater estereótipos negativos. Conforme divulgado pelo New York Times, a área destinada ao novo país seria de aproximadamente 100 mil m², menor que os 440 mil m² do Vaticano.
Caso aprovada, a medida resultaria na criação do menor país do mundo, gerando debates significativos. A proposta continua sendo um tema politicamente sensível na Albânia, com a fase de votação parlamentar ainda pendente. A iniciativa, divulgada em 2024, segue em processo de desenvolvimento legislativo, sem data definida para decisão final.
Um Estado Espiritual com Liberdade e Tolerância
O território proposto para o “Vaticano Muçulmano” localiza-se em um complexo no leste de Tirana e pertence à Ordem Bektashi, uma corrente sufista do Islã conhecida por sua interpretação mais flexível e heterodoxa da fé. O líder religioso Edmond Brahimaj, conhecido como Baba Mondi, seria o comandante do novo Estado.
Rama descreveu o futuro Estado como “sem muros, sem polícia, sem exército, sem impostos ou outros atributos, mas uma sede, um estado espiritual”. A visão é de um local que permita, por exemplo, o consumo de álcool e a liberdade para as mulheres se vestirem como desejarem, sem impor regras rígidas de estilo de vida, reforçando a mensagem de moderação e abertura.
Críticas e Resistências à Proposta
Apesar das intenções declaradas pelo governo albanês, a proposta enfrenta resistência interna. A Comunidade Muçulmana da Albânia classificou a iniciativa como “um precedente perigoso” e afirmou que a Ordem Bektashi não é a única representante oficial do Islã no país. A instituição ressaltou que a proposta não foi discutida previamente com as comunidades religiosas.
Especialistas como Besnik Sinani, pesquisador ouvido pela agência Deutsche Welle (DW) em 2024, alertam para o risco de a criação do microestado perturbar o equilíbrio religioso e os arranjos históricos entre religião e Estado na Albânia. Há também a preocupação de que a iniciativa possa levar o país a ser erroneamente rotulado como um “Estado islâmico”.
A Busca por uma Nova Narrativa para o Islã
A Ordem Mundial Bektashi defende que o projeto tem um caráter primordialmente espiritual, com o objetivo único de “liderança espiritual”. A iniciativa de Edi Rama busca, em essência, combater o estigma associado aos muçulmanos globalmente, promovendo uma imagem mais tolerante e diversa do Islã. A mensagem é clara: “Não deixem que o estigma dos muçulmanos defina quem são os muçulmanos”, como afirmou o primeiro-ministro.
A proposta, ainda em desenvolvimento, reflete um esforço para criar um espaço único que celebre a diversidade dentro do próprio Islã e projete uma imagem de coexistência pacífica e respeito às diferenças. A Albânia, conhecida por sua harmonia inter-religiosa, pode se tornar palco de um experimento geopolítico e religioso sem precedentes.