Antonio Adolfo celebra o Carnaval com a alma do Jazz em álbum afetivo e jazzístico. O pianista carioca lança “Carnaval – The songs were so beautiful”, uma obra que une a tradição da folia brasileira com a liberdade improvisacional do jazz.
O renomado pianista e arranjador carioca Antonio Adolfo presenteou o público com o lançamento de seu mais recente trabalho, o álbum “Carnaval – The songs were so beautiful”, em julho de 2025. A obra, que conta com a arte de capa assinada pelo saudoso Elifas Andreato, é uma imersão nostálgica e sofisticada nas melodias que marcaram a infância do artista.
Com uma carreira sólida que se estende desde 1987, Adolfo demonstra, mais uma vez, seu domínio e sua paixão pela música brasileira. Desta vez, ele se aventura a dar contornos jazzísticos a sambas, frevos e marchinhas que ecoavam em sua memória afetiva, sem perder a essência e o encanto de cada canção.
A produção musical foi criteriosamente elaborada, reunindo um octeto de músicos de altíssimo nível. Ao lado de Antonio Adolfo no piano, o álbum conta com a participação de Danilo Sinna (sax alto), Jessé Sadoc (trompete e flugelhorn), Jorge Helder (baixo), Marcelo Martins (flauta e sax tenor), Rafael Barata (bateria e percussão), Rafael Rocha (trombone) e Ricardo Silveira (guitarra). Juntos, eles criam uma tapeçaria sonora rica e envolvente, que honra o legado do carnaval e a expressividade do jazz. A informação é do jornalista que escreve sobre música desde 1987.
Releituras com a assinatura do Jazz
No álbum, clássicos como o samba “É com esse que eu vou” (Pedro Caetano, 1947) e o frevo “Vassourinhas” (Mathias Rocha e Joana Batista Ramos, 1949) ganham novas harmonias e arranjos, explorando a liberdade melódica e rítmica característica do jazz. Adolfo consegue a proeza de redesenhar as canções sem descaracterizar suas melodias originais, mantendo a identidade de cada peça.
Outra joia do cancioneiro popular, a marcha “Oba” (Oswaldo Nunes, 1962), hino do bloco carioca Bafo da Onça, é apresentada de forma um pouco mais distante do original, mas ainda assim totalmente reconhecível para os ouvidos dos foliões mais atentos. A habilidade de Adolfo em transitar por diferentes sonoridades é um dos pontos altos do disco.
A sensibilidade por trás das notas
Mesmo em um contexto instrumental, Antonio Adolfo demonstra uma profunda conexão com o sentido das letras que embalam o carnaval. A marcha “Mal me quer” (Cristóvão de Alencar e Newton Teixeira, 1940), por exemplo, que tradicionalmente carrega uma fantasia de alegria, revela em sua interpretação um tom mais melancólico, evidenciando a sintonia entre a música e a mensagem original.
O álbum transita com maestria entre a serenidade jazzy de marchas como “A lua é dos namorados” (Armando Cavalcanti, Kléssius Caldas e Brasinha, 1960) e a energia extrovertida de sambas como “Vai passar” (Francis Hime e Chico Buarque, 1984). Este último, com seu enredo político, ressoa com particular força em tempos recentes, provando a atemporalidade de sua mensagem.
Um convite à audição contínua
Antonio Adolfo, que celebrou 79 anos em 10 de fevereiro, prova com este trabalho que o espírito do Carnaval pode e deve ser celebrado com a sofisticação e a liberdade que o jazz proporciona. “Carnaval – The songs were so beautiful” é um convite para ir além dos dias de folia, uma obra que resiste e encanta pela qualidade e pelo virtuosismo de um grande músico brasileiro.
A recomendação é clara: vale a pena mergulhar neste universo sonoro, redescobrindo a beleza intemporal das músicas dos antigos carnavais, que continuam tão vivas e contagiantes quanto antes.