Arábia Saudita pode enriquecer urânio em solo nacional, segundo documentos e especialistas em controle de armas.
A possibilidade de a Arábia Saudita vir a enriquecer urânio em seu próprio território surge como um ponto central em um acordo nuclear atualmente em negociação com os Estados Unidos. A informação, obtida a partir de documentos do Congresso americano e análises de uma organização de controle de armas, reacende preocupações globais sobre a proliferação nuclear, especialmente em um cenário de impasse atômico com o Irã.
Tanto a administração de Donald Trump quanto a de Joe Biden buscaram estabelecer um acordo para compartilhar tecnologia nuclear americana com o reino saudita. No entanto, especialistas em não proliferação alertam que a instalação de tais capacidades em solo saudita poderia pavimentar o caminho para um futuro programa de armas nucleares. Essa preocupação é amplificada por declarações anteriores do príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, que afirmou que o país buscaria desenvolver armas nucleares caso o Irã obtivesse a bomba atômica.
A notícia surge em um contexto geopolítico delicado, onde a questão nuclear iraniana permanece um ponto de atrito. A Arábia Saudita, um ator chave no Oriente Médio, já possui laços de defesa com o Paquistão, um país com armas nucleares. Em 2023, um pacto de defesa mútua foi assinado, com o ministro da Defesa paquistanês declarando que o programa nuclear de seu país “será disponibilizado” à Arábia Saudita se necessário, um sinal interpretado como um recado a Israel, o único país do Oriente Médio com arsenal nuclear declarado.
Conforme informação divulgada pela Associated Press, a cooperação nuclear, embora potencialmente positiva para reforçar normas de não proliferação e aumentar a transparência, levanta questões sobre os detalhes do acordo proposto. Kelsey Davenport, diretora de política de não proliferação da Arms Control Association, expressou preocupação de que o governo Trump não tenha avaliado cuidadosamente os riscos de proliferação e o precedente que tal acordo poderia criar.
Potencial de Enriquecimento e a Corrida Nuclear no Oriente Médio
Documentos do Congresso analisados pela AP indicam que o governo Trump planejava firmar cerca de 20 acordos comerciais nucleares com países globalmente, incluindo a Arábia Saudita. O valor estimado desses contratos pode chegar a bilhões de dólares. O texto sugere que a conclusão desses acordos promoveria os interesses de segurança nacional dos EUA, rompendo com políticas consideradas ineficazes e permitindo que a indústria americana recuperasse espaço diante de concorrentes internacionais como China, França, Rússia e Coreia do Sul.
O rascunho do acordo prevê a implementação de salvaguardas com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU responsável pela fiscalização do setor nuclear. Isso incluiria a supervisão de áreas consideradas “mais sensíveis à proliferação”, como o enriquecimento de urânio, a fabricação de combustível e o reprocessamento. A Arábia Saudita já é membro da AIEA, que visa promover o uso pacífico da energia nuclear e garantir que países não mantenham programas secretos de armas atômicas.
O Enriquecimento de Urânio: Um Caminho para Armas Nucleares?
O enriquecimento de urânio, por si só, não resulta diretamente na produção de uma arma nuclear. Outras etapas técnicas complexas, como o uso coordenado de explosivos de alta precisão, são necessárias. Contudo, o processo de enriquecimento é visto como um passo fundamental que abre a porta para a potencial militarização, o que explica as preocupações ocidentais em relação ao programa nuclear iraniano. O enriquecimento de urânio a até 60% de pureza pelo Irã, nível tecnicamente próximo dos 90% necessários para fins bélicos, tem sido motivo de grande apreensão.
Em contraste, os Emirados Árabes Unidos, vizinhos da Arábia Saudita, firmaram um acordo “123” com os EUA para a construção da usina nuclear de Barakah, com tecnologia sul-coreana. Uma característica importante desse acordo é que os Emirados renunciaram ao enriquecimento de urânio, um modelo considerado por especialistas como o “padrão-ouro” para países que buscam energia nuclear sem os riscos associados à proliferação.
Tensões com o Irã e a Declaração do Príncipe Herdeiro
O avanço nas negociações entre Arábia Saudita e Estados Unidos ocorre em um momento de crescentes ameaças militares por parte de Donald Trump contra o Irã, caso não haja um acordo sobre o programa nuclear iraniano. O Irã, por sua vez, sustenta que seu programa de enriquecimento tem fins pacíficos, mas países ocidentais e a AIEA afirmam que Teerã manteve um programa nuclear militar organizado até 2003. Recentemente, autoridades iranianas têm mencionado com mais frequência a possibilidade de buscar o armamento nuclear, aumentando as tensões com os EUA.
A declaração do príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, ressalta a dinâmica regional: “Se o Irã obtiver a bomba, nós teremos que conseguir uma também”. Essa afirmação demonstra a percepção de que um Irã nuclear representaria uma ameaça existencial para a Arábia Saudita, potencialmente desencadeando uma corrida armamentista na região, com consequências imprevisíveis para a segurança global.