A Mata Atlântica pode se tornar o primeiro bioma do mundo a perder seu predador de topo, a onça-pintada, devido à drástica redução de suas presas. Um estudo recente revela um cenário preocupante de “extinção silenciosa” que coloca em risco a sobrevivência deste icônico felino.
Uma pesquisa realizada por cientistas brasileiros identificou uma ligação direta entre a baixa disponibilidade de presas e o declínio da população de onças-pintadas na Mata Atlântica. A falta de alimento, especialmente de mamíferos de médio e grande porte, é apontada como o principal fator para o desaparecimento gradual do predador no bioma.
A escassez de presas é tão crítica que, em várias áreas monitoradas, a média de indivíduos por espécie ficou abaixo de cinco, um número insuficiente para sustentar populações de onças a longo prazo. A situação é ainda mais alarmante em regiões de mais fácil acesso para atividades humanas, onde a pressão sobre a fauna é maior.
O estudo, coordenado pela professora Kátia Maria Paschoaletto Micchi de Barros Ferraz, da Esalq-USP, e publicado na revista Global Ecology and Conservation, analisou nove áreas protegidas da Mata Atlântica. Os resultados reforçam o alerta de que, sem ações urgentes, a onça-pintada pode desaparecer completamente deste bioma, o que seria uma tragédia ambiental sem precedentes.
O Cenário de Escassez de Alimento para a Onça-Pintada
A pesquisa revelou um quadro de baixa abundância e biomassa das presas preferenciais da onça-pintada na Mata Atlântica. Foram selecionadas 14 espécies de mamíferos, como catetos, queixadas, cervídeos, antas e pacas, que formam a base alimentar do felino. A análise, que utilizou câmeras automáticas em 496 pontos, mostrou que a quantidade e o peso total desses animais são insuficientes em quase todas as áreas estudadas.
Em muitas regiões, a biomassa somada das presas ficou abaixo de 100 kg, um indicador claro da falta de alimento para sustentar a população de onças a longo prazo. Essa “extinção silenciosa das presas”, como descreveu a coordenadora do estudo, Kátia Ferraz, é o principal gatilho para o declínio do predador.
O Parque Nacional do Iguaçu destacou-se como a única área com números satisfatórios, apresentando uma média de 27,3 indivíduos por espécie e 638 kg de biomassa. Essa região abriga a maior população de onças da Mata Atlântica, demonstrando a importância de uma base alimentar saudável para a sobrevivência do felino.
Impacto da Pressão Humana e a Necessidade de Ações Urgentes
O estudo também evidenciou que áreas de mais fácil acesso para humanos apresentaram menor quantidade de mamíferos de médio e grande porte. Em contraste, regiões mais isoladas e de difícil acesso concentraram maior população de presas e biomassa, indicando o impacto direto da pressão humana na redução desses animais.
A pesquisadora Kátia Ferraz ressaltou que cerca de 85% do habitat original da onça-pintada na Mata Atlântica já foi perdido, e a espécie hoje ocupa apenas uma fração desse remanescente, com populações pequenas e isoladas. A falta de fiscalização em unidades de conservação, a caça e a ausência de alternativas socioeconômicas para as comunidades locais agravam o problema.
Para evitar a extinção da onça-pintada, Ferraz defende o reforço na fiscalização, o cuidado com as unidades de conservação, o controle de ameaças e o engajamento das comunidades locais. A perda deste predador de topo causaria um efeito cascata em todo o ecossistema, alterando a estrutura da vegetação e o equilíbrio natural.
A Situação da Onça-Pintada em Diferentes Áreas da Mata Atlântica
As estimativas mais recentes indicam uma situação crítica para a onça-pintada em grande parte da Mata Atlântica. Enquanto o Parque Nacional do Iguaçu e seu entorno, o Corredor Verde, concentram cerca de 93 onças, outras regiões enfrentam números alarmantes.
Na Serra do Mar, há menos de 50 onças em toda a região. Parques como o Turístico do Alto Ribeira e o Carlos Botelho abrigam entre 4 e 8 indivíduos cada. Na Serra do Mar Norte, a presença é confirmada, mas sem um número exato. As áreas da Estação Ecológica do Bananal e a APA de São Francisco Xavier não registram mais a presença de onças-pintadas.
A ligação entre a falta de presas e o desaparecimento da onça é clara, já que a escassez de animais de médio e grande porte força o felino a caçar presas menores com maior frequência, o que não é sustentável a longo prazo. A sobrevivência da onça-pintada na Mata Atlântica depende de ações imediatas para reverter o quadro de “extinção silenciosa” de suas presas.