Fabiana Cozza e Gilson Peranzzetta Dão Outras Cores e Tons ao Cancioneiro de Dorival Caymmi em Show Requintado

O cancioneiro de Dorival Caymmi, celebrado por sua sofisticação e aparente simplicidade, foi revisitado com maestria pela cantora Fabiana Cozza e pelo pianista e arranjador Gilson Peranzzetta. O show inédito, batizado de “Cores de Caymmi”, estreou no Rio de Janeiro, no Espaço Cultural BNDES, apresentando uma abordagem requintada e cheia de novas perspectivas para as canções consagradas do compositor baiano.

A apresentação, primeira atração gratuita da temporada de 2026 do Espaço Cultural BNDES, demonstrou como é possível friccionar a obra de Caymmi para imprimir outros tons sem descaracterizá-la. Fabiana Cozza, com seus 50 anos celebrados em janeiro, e Gilson Peranzzetta, que completará 80 anos em abril, mostraram uma sintonia ímpar, guiando o público por um repertório que mesclou o samba tradicional com arranjos que flertavam com o jazz.

Conforme divulgado, o show buscou explorar novas harmonias para as melodias de Caymmi, sem mutilá-las. A noite foi marcada pela expressividade vocal de Cozza e pelos arranjos inspirados de Peranzzetta, que contou com o acompanhamento de Alexandre Cavallo no baixo e Ricardo Costa na bateria, adicionando texturas e cores à performance. A iniciativa de trazer novas roupagens ao legado de Caymmi foi elogiada, lembrando outros artistas que também exploraram o cancioneiro do compositor, como Nana Caymmi, Gal Costa e Alice Caymmi.

Um Diálogo Musical Enriquecedor

O espetáculo começou com uma suíte instrumental tocada por Gilson Peranzzetta ao piano. Ele emendou sucessos como “Dois de fevereiro” (1957), “A lenda do Abaeté” (1948) e “Canção da partida” (1957), parte da suíte “Histórias de pescadores”. Essa abertura já prenunciava a qualidade dos arranjos que viriam, com Peranzzetta explorando caminhos harmônicos originais.

A entrada de Fabiana Cozza trouxe um brilho especial ao palco. Sua interpretação de “Dora” (1945) foi notável, distanciando-se da intensidade de Nana Caymmi, que tem a música como um de seus grandes sucessos. Cozza optou por uma linha mais suave e encantadora, sem reproduzir o clímax “Ô Doraaaa…”, demonstrando sua própria identidade artística.

Momentos de Ternura e Sofisticação

A cantora emocionou a plateia ao interpretar “Acalanto” (1942) ao lado do piano de Peranzzetta, com uma ternura que remete à origem da canção, composta como uma canção de ninar. Outro ponto alto foi a reinterpretação de “Morena do mar” (1967), apresentada em um tom mais solene, quase como uma peça de câmara, mostrando a versatilidade do cancioneiro de Caymmi e a habilidade dos artistas em adaptá-lo.

O samba “Saudade da Bahia” (1957) ganhou um tom mais jazzístico em passagens instrumentais, evidenciando a influência do gênero nos arranjos de Peranzzetta. Fabiana Cozza, por sua vez, brilhou em clássicos como “Você já foi à Bahia?” (1941) e “Vatapá” (1944), trazendo seu tempero particular e celebrando a herança afro-brasileira presente nas composições de Caymmi.

Uma Celebração Afinatíssima

Canções como “A vizinha do lado” (1946) e “Doralice” (1945) foram apresentadas com requebros suaves, enquanto “Canoeiro” (1944) permitiu que Cozza explorasse floreios vocais que ressaltavam a ancestralidade afro-brasileira. O encerramento com “Samba da minha terra” (1940) e “Maracangalha” (1956), que contou com o coro espontâneo do público, selou a noite com beleza e afinação.

A única ressalva, segundo a fonte, foi a interpretação instrumental de “Marina” (1947), que tornou o samba-canção quase irreconhecível. No entanto, o show como um todo foi uma celebração da obra de Dorival Caymmi, com Fabiana Cozza e Gilson Peranzzetta imprimindo suas próprias cores com reverência e maestria, provando que o cancioneiro do compositor baiano continua vivo e inspirador.

Um Convite à Descoberta Musical

O espetáculo “Cores de Caymmi” é um convite para redescobrir a obra de Dorival Caymmi sob uma nova perspectiva. A sintonia entre Fabiana Cozza e Gilson Peranzzetta resultou em uma apresentação que encantou o público carioca, oferecendo novas nuances e tons a canções que já fazem parte da memória afetiva brasileira.

A dupla demonstrou grande respeito pelo material original, ao mesmo tempo em que ousou em seus arranjos e interpretações. A performance de Cozza, com sua voz expressiva e emotiva, casou perfeitamente com a genialidade de Peranzzetta nos arranjos e no piano, criando uma experiência musical rica e memorável para todos os presentes.

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