Ações da Petrobras batem recorde em meio à guerra no Irã, configurando o terceiro “choque do petróleo” da história recente do Brasil.
O cenário geopolítico no Oriente Médio, com a intensificação do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, tem provocado uma disparada nos preços do petróleo no mercado internacional. Essa valorização, por sua vez, reflete diretamente no desempenho das ações da Petrobras (PETR4) na Bolsa de Valores, que alcançaram patamares recordes.
Especialistas apontam que o Brasil vive um autêntico “choque do petróleo”, o terceiro dos últimos 50 anos, após os eventos de 1973 e 1979. No entanto, diferentemente das crises anteriores, o país se encontra em uma posição mais favorável, com autossuficiência na produção de petróleo bruto e como exportador.
Apesar da conjuntura externa favorável, a alta das ações da Petrobras também é impulsionada por fatores internos, como a retomada de investimentos exploratórios e a modernização de suas refinarias. Essa combinação de fatores abre novas oportunidades para a estatal em meio à turbulência global. Conforme divulgado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a produção brasileira de petróleo e gás natural atingiu um recorde em fevereiro, com 5,304 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d).
Oportunidades e Desafios da Autossuficiência Brasileira
A autossuficiência em petróleo bruto coloca o Brasil em uma posição estratégica privilegiada. Economistas como István Kecskeméti e Zoltan Horváth, da consultoria húngara OTP Global Markets, destacam que, com os preços do petróleo em alta, o país pode ver um aumento nas exportações e nas receitas tributárias, além de um fluxo maior de dividendos para o Tesouro Nacional.
Contudo, o cenário não é isento de desafios. O Brasil ainda necessita importar derivados importantes, como diesel, gasolina e querosene de aviação. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, anunciou que a empresa cogita atingir a autossuficiência em diesel em cinco anos, um objetivo ambicioso que visa suprir a demanda interna e reduzir a dependência de importações.
Essa meta surge em um momento crítico, com registros de racionamento de diesel em estados como Rio Grande do Sul e Mato Grosso, impactando diretamente o agronegócio e a colheita de safras importantes. O governo federal, preocupado com os reflexos na economia e na imagem pública, tem buscado medidas para mitigar esses efeitos, como a redução de impostos sobre o diesel e subsídios.
Volatilidade Histórica das Ações da Petrobras
O economista Mahatma Ramos, do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra, ligado à Federação Única dos Petroleiros (FUP), ressalta que o preço das ações da Petrobras é historicamente sensível a fatores externos e internos. Ele relembra que, em abril de 2021, as ações PETR4 chegaram a valer R$ 23, e durante a guerra na Ucrânia, em 2022, atingiram R$ 32, antes de sofrerem quedas devido a incertezas políticas.
Desde janeiro de 2023, observa-se um processo de recuperação do valor das ações, que se manteve até o início de 2024, quando o preço da PETR4 estabilizou-se entre R$ 35 e R$ 42. Uma desaceleração posterior foi atribuída à conjuntura econômica chinesa e à guerra comercial.
A influência da guerra no Irã é notável. No dia 27 de fevereiro, véspera do início dos ataques, as ações PETR4 fecharam em baixa. Já em 2 de março, após a reabertura dos mercados, registraram uma valorização expressiva de 4,58%. Nos 22 dias seguintes, os títulos preferenciais da Petrobras apresentaram desempenho positivo em 15 pregões, fechando o dia 1º de abril a R$ 47,29, uma alta de cerca de 20% em um mês.
Petróleo Brent e Ações PETR4: Uma Correlação Clara
A correlação entre o preço do barril de petróleo Brent e as ações da Petrobras é evidente. Em 27 de fevereiro, o Brent custava US$ 73,25, e em 2 de março, subiu para US$ 77,75. Em 2 de abril, o barril foi cotado a US$ 107,94, após atingir um pico de US$ 116,25 em 9 de março, quando a ameaça de bloqueio do estreito de Ormuz pelo Irã se tornou clara, afetando um quinto da produção petrolífera global.
O professor Maurício Weiss, da UFRGS, descreve o comportamento das ações da estatal como uma “síntese de fatores conjunturais e estruturais”. Ele lembra que a empresa já apresentava um desempenho notável em produtividade e lucratividade antes da eclosão da guerra, com um aumento de lucro de aproximadamente 200% em 2024, superando R$ 110 bilhões, impulsionado pela produção do pré-sal.
O Futuro Energético da Petrobras e o Cenário Global
O economista Cloviomar Cararine, do Dieese, aponta que a avaliação de uma empresa envolve análises operacional, política e de mercado. Ele destaca que a Petrobras, maior empresa da América Latina em valor de mercado, teve seu perfil fortalecido pela exploração do pré-sal. No entanto, a empresa também enfrentou o escândalo da Lava-Jato e passou por mudanças significativas em sua gestão e políticas de preços.
Cararine sugere que a Petrobras deve considerar o cenário global, marcado pela dependência de combustíveis fósseis e pela aposta da China em diversificação energética. Ele defende que a empresa se converta de petrolífera para uma empresa de energia, adaptando-se às novas dinâmicas energéticas mundiais.
A eleição de Donald Trump e a guerra no Irã servem como lembretes da importância dos combustíveis fósseis, mas a transição energética é um caminho inevitável. O futuro da Petrobras dependerá de sua capacidade de navegar entre esses fatores, buscando um modelo de negócios mais sustentável e alinhado com as demandas globais por energia limpa.