Aumento do querosene de aviação no Brasil: o que isso significa para o preço das passagens aéreas?
A escalada de preços do querosene de aviação (QAV) no Brasil, impulsionada pelo conflito no Oriente Médio, acende o alerta para um novo aumento nas passagens aéreas. A Petrobras anunciou um reajuste de 54,6% no valor do QAV, reflexo direto da instabilidade geopolítica global e da política de paridade de preços da estatal.
Este cenário, que já vinha sendo desenhado com a inflação acumulada no setor, agora se agrava, gerando preocupações para consumidores e companhias aéreas. Especialistas apontam que o Brasil possui vulnerabilidades particulares que amplificam o impacto dessas flutuações internacionais.
O governo federal já sinalizou a intenção de implementar medidas de apoio ao setor aéreo, mas a extensão e eficácia dessas ações ainda são incertas. Enquanto isso, a recomendação para os viajantes é se planejar com antecedência.
O Efeito Dominó da Guerra no Irã no Preço do Combustível Aéreo
A guerra entre Irã e Estados Unidos tem repercussões que chegam até o Brasil. O controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, aumenta os riscos no transporte da commodity. Isso eleva o preço do barril de petróleo Brent, que serve de referência internacional.
Como o querosene de aviação é um derivado direto do petróleo, seu preço acompanha essas oscilações. A Petrobras, ao adotar a Política de Paridade de Preço de Importação (PPI), vincula os preços nacionais ao mercado internacional, mesmo que a maior parte do QAV consumido no Brasil seja produzida internamente.
Dany Oliveira, ex-diretor da IATA no Brasil, explica que, em tempos normais, o QAV representa cerca de 40% dos custos das empresas aéreas brasileiras, bem acima da média mundial de 27%. Após o último reajuste, esse percentual pode ter chegado a 45%, segundo a Abear.
Brasil: Um Cenário de Tempestade Perfeita para o Setor Aéreo
A alta do QAV no Brasil é amplificada por outros fatores. A insegurança jurídica no setor e um mercado já fragilizado pela pandemia tornam o país particularmente vulnerável a choques de preço. Além disso, desvios de rota em áreas de conflito podem aumentar o tempo de voo e, consequentemente, o consumo de combustível.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) reconhece que algum repasse para as passagens aéreas é esperado, embora o governo busque mitigar os impactos. Se o repasse fosse integral, o custo adicional por passageiro em aeronaves maiores poderia ser significativo, chegando a R$ 1,8 mil no caso de um A380.
O planejamento financeiro se torna crucial. Diego Endrigo, planejador financeiro, sugere antecipar a compra de passagens, pois a instabilidade pode levar a uma redução na oferta de voos, impactando a lei da oferta e demanda e elevando ainda mais os preços.
Incertezas Jurídicas e o Futuro do Transporte Aéreo
A decisão do STF sobre processos de cancelamento de voos por “fortuito externo” adiciona outra camada de incerteza. Se conflitos como o do Irã forem considerados força maior, os passageiros podem ter direitos de reclamação limitados, segundo a interpretação de alguns especialistas.
A Anac admite que a legislação atual pode precisar de aprimoramentos para abranger situações de guerra, mas reforça que as companhias aéreas não estão isentas de garantir assistência material aos passageiros afetados.
Em meio a essas turbulências, surge uma oportunidade de longo prazo: o desenvolvimento de combustíveis sustentáveis para aviação (SAF). O Brasil possui grande potencial para se tornar um líder na produção de SAF, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e a vulnerabilidade a choques geopolíticos.
A Lei do Combustível do Futuro já prevê o uso de SAF a partir de 2027, e empresas como a LATAM já iniciaram operações com o biocombustível. Contudo, ainda é necessário um maior investimento para acelerar a produção e tornar o SAF economicamente mais competitivo em relação ao querosene tradicional.