Guerra no Oriente Médio: Como conflito eleva preços de combustíveis e afeta inflação e abastecimento no Brasil
A instabilidade no Oriente Médio intensifica a crise global dos combustíveis, elevando o preço do barril de petróleo e já refletindo diretamente na inflação e no abastecimento de postos em todo o Brasil. Analistas alertam para novas altas caso os conflitos se prolonguem.
O diesel acumula alta de quase 24% desde o início do conflito, passando de R$ 6,03 para R$ 7,45 o litro, em média, segundo a ANP. A gasolina também sentiu o impacto, com valorização de 8%, saindo de R$ 6,28 para R$ 6,78.
Enquanto o governo busca medidas para conter a escalada de preços, a oferta global da commodity se torna um ponto de atenção. A situação já é monitorada de perto pelo Banco Central em suas decisões sobre a taxa de juros, a Selic.
A escalada dos preços e seus impactos no bolso do consumidor
Com o barril de petróleo Brent próximo dos US$ 120, a guerra no Oriente Médio e seus reflexos na oferta global de petróleo acendem o sinal vermelho para novas elevações nos preços dos combustíveis. Essa conjuntura já tem provocado impactos significativos na inflação brasileira e nas decisões de política monetária.
Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) revelam que, desde o início do conflito, o litro do diesel já subiu quase 24%, saltando de uma média de R$ 6,03 para R$ 7,45. A gasolina, por sua vez, registrou uma alta de 8%, passando de R$ 6,28 para R$ 6,78 por litro.
As tensões geopolíticas, com relatos de Israel ampliando ataques e bombardeando instalações no Irã, mantêm o preço do petróleo em patamares elevados. Analistas preveem uma tendência de alta ainda maior caso a guerra se intensifique e os problemas de oferta global da commodity se agravem.
Medidas do governo e a busca por estabilidade
Diante do cenário de alta nos preços dos combustíveis, o governo brasileiro tem trabalhado para evitar uma crise inflacionária em pleno ano eleitoral. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou um pacote de medidas, incluindo a isenção de impostos federais sobre o diesel.
Uma proposta para que governadores também zerem o ICMS sobre combustíveis foi recusada. No entanto, uma segunda oferta foi aceita por um número relevante de estados: um auxílio de R$ 1,20 por litro de diesel importado até o fim de maio, com custos divididos entre União e estados, conforme afirmou o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron.
Desabastecimento e defasagem de preços no mercado interno
Entidades sindicais já relatam falta de combustíveis em alguns postos pelo país, e a Polícia Federal deflagrou operação contra o aumento abusivo de preços. Um dos principais entraves é a defasagem entre o preço do diesel nacional e o mercado internacional, tornando a importação mais cara.
O levantamento da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) indica que os preços nas refinarias da Petrobras estão abaixo dos valores internacionais. No caso do diesel, essa diferença chegou a 65% em 24 de março, cerca de R$ 2,34 por litro abaixo da paridade de importação. Na gasolina, a defasagem foi de 45%, ou R$ 1,13 por litro.
Com preços internos mais baixos, importadores privados reduzem sua atuação, o que, segundo estimativas do BTG Pactual, levou a uma queda de 60% na atividade desses operadores. Atualmente, cerca de 30% do diesel consumido no Brasil é importado, o que aumenta a dependência da Petrobras e gera riscos de falta de produto ou aumento de preços.
Impacto da inflação e decisões sobre a taxa de juros
O comportamento do petróleo, pressionado pelo conflito geopolítico, tornou-se um fator central nas projeções econômicas. A alta da commodity pode influenciar não apenas a inflação, mas também as decisões sobre a taxa básica de juros, a Selic.
O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic para 14,75% ao ano em março, mas deixou em aberto novos cortes, citando o conflito como fonte de incerteza. O economista-chefe do Banco do Brasil, Marcelo Rebelo, estima que o choque do petróleo pode adicionar cerca de 0,6 ponto percentual ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026.
Apesar do impacto, o Brasil possui alguma capacidade de absorção de choques, pois também é exportador de petróleo e se beneficia parcialmente da alta das cotações internacionais. No entanto, o efeito chega ao consumidor através dos combustíveis e do transporte, elementos cruciais na formação da inflação medida pelo IPCA.