Fernando Haddad deixa a Fazenda: um balanço do legado com impostos, gastos e dívida crescente

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, está prestes a deixar o cargo, alegando missão cumprida. Após prorrogar sua permanência em fevereiro, sua saída é esperada para este mês. Nos bastidores, especula-se que Dario Durigan, atual secretário-executivo, possa assumir a pasta. Haddad cogita concorrer ao governo de São Paulo nas eleições de outubro.

Em meio a debates sobre as contas públicas, Haddad tem defendido seu trabalho, citando o cumprimento da meta de déficit primário, o baixo desemprego e o crescimento econômico. Ele atribui esses resultados à consolidação fiscal iniciada em 2024. No entanto, dados oficiais indicam uma trajetória preocupante na dívida pública.

A dívida bruta do governo federal registrou um aumento expressivo durante a gestão de Haddad. Ao assumir em 2023, o montante era de 71,7% do PIB, segundo o Banco Central. No final de 2024, atingiu 76,1% do PIB, com projeções apontando para 81,7% em 2026, segundo o Tesouro Nacional. Expectativas de mercado são ainda mais alarmantes, prevendo até 84,9% do PIB.

Ascensão da Dívida Pública: Um Legado Questionado

A trajetória ascendente da dívida pública é o principal componente criticado no legado de Fernando Haddad à frente da Fazenda. Economistas apontam a falta de controle nos gastos públicos como fator determinante para essa escalada. Alexandre Manoel, sócio da Global Intelligence and Analytics, afirma que a deterioração fiscal é inequívoca, com dois dos maiores saltos da dívida nas últimas duas décadas ocorrendo neste governo e no de Dilma Rousseff.

A fragilidade da nova regra fiscal implementada no início do governo é outro ponto de atenção. Segundo João Mário de França, do FGV-Ibre, a regra, embora aprovada pelo Congresso, não assegurou a sustentabilidade da dívida pública por si só. Essa fragilidade, segundo ele, contribui para a manutenção de juros elevados, pois o Banco Central busca conter pressões de demanda.

Haddad argumenta que as metas de resultado primário têm sido cumpridas. Contudo, o desempenho ocorreu, em grande parte, por meio de ajustes contábeis e exclusão de despesas do cálculo da meta, as chamadas medidas parafiscais. A excepcionalização de gastos, como os relacionados às tragédias climáticas no Rio Grande do Sul, permitiu o alcance do déficit zero em 2025, mas com questionamentos sobre a sustentabilidade real das contas.

A Agenda Tributária e o Apelido “Taxad”

A busca por aumento de receitas marcou a gestão de Haddad, gerando um custo político considerável e consolidando sua imagem como ministro associado ao aumento de impostos, o que lhe rendeu o apelido de “Taxad”. A agenda arrecadatória ganhou centralidade com o arcabouço fiscal a partir de 2024, com intensas negociações no Congresso.

O foco inicial foi reverter desonerações, como a da folha de pagamentos, além da reoneração de combustíveis e tributação de fundos exclusivos e offshores. A tentativa de encerrar a desoneração da folha de pagamentos em 2023 gerou forte reação do Congresso e de setores empresariais, forçando o governo a recuar e prorrogar o benefício, com compromissos de revisão futura.

Esse episódio evidenciou os limites da articulação política da Fazenda, estabelecendo um padrão de resistência parlamentar a medidas fiscais, negociações prolongadas e soluções intermediárias para evitar derrotas no Congresso. A comunicação da equipe econômica também enfrentou desafios, como na crise do Pix, que viralizou nas redes sociais como tentativa de taxação.

Legado Ambíguo: Conquistas e Críticas

Apesar das críticas sobre o aumento da dívida e a fragilidade fiscal, a gestão de Haddad também é creditada por reorganizar e recuperar a base de arrecadação do governo federal. O economista Alexandre Manoel reconhece avanços como a reforma tributária sobre o consumo e o Marco Legal das Garantias, iniciativas que governos anteriores tentaram implementar sem sucesso.

No entanto, Manoel pondera que o legado é ambíguo. A aprovação do Orçamento de 2026, com meta de superávit primário de 0,25% do PIB, foi alcançada por meio de medidas arrecadatórias, contenção de despesas e redução de margens de manobra, transferindo o custo do ajuste para o próximo governo. A combinação de contenção de gastos e alívio tributário gerou percepção de “dar com uma mão e tirar com a outra”, desgastando a imagem do ajuste fiscal.

A saída de Haddad da Fazenda deixa um rastro de debates sobre a condução da política econômica, com pontos positivos em reformas estruturais e desafios significativos no controle das contas públicas e da dívida. O futuro da economia brasileira sob a nova gestão da pasta permanece como um ponto de atenção para o mercado e a sociedade.

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