Fernando Haddad se despede do Ministério da Fazenda: Um balanço da gestão e seus principais legados na economia
Fernando Haddad deixará o comando do Ministério da Fazenda nesta semana, após três anos e dois meses à frente da equipe econômica. Sua saída se dá para que ele concorra ao governo de São Paulo nas eleições de outubro, pelo PT. Durante sua gestão, Haddad foi o protagonista de importantes mudanças na economia brasileira, com destaque para a reforma tributária e a criação do arcabouço fiscal.
Apesar de enfrentar dificuldades para cortar gastos e pressões internas, o ministro conseguiu apresentar resultados em indicadores como o Produto Interno Bruto (PIB), que cresceu acima do esperado, e a taxa de desemprego, que recuou a níveis recordes. A renda média dos brasileiros também apresentou avanços, em um cenário de inflação controlada e juros elevados.
Apesar das conquistas, a gestão de Haddad também foi marcada por desafios na consolidação da credibilidade junto ao mercado financeiro. Conforme informações divulgadas pelo g1, especialistas apontam que o ministro demonstrava capacidade técnica e habilidade política, mas que sua atuação foi limitada por decisões do Palácio do Planalto, especialmente em relação às prioridades de gastos do presidente Lula.
Reforma Tributária: Um marco após décadas de discussões
Uma das principais realizações de Fernando Haddad à frente da Fazenda foi a condução da reforma tributária sobre o consumo. Promulgada em dezembro de 2023, a proposta unifica impostos federais, estaduais e municipais, com o objetivo de simplificar o sistema de cobrança de impostos no Brasil. A medida, que tramitou por mais de 30 anos no Congresso Nacional, busca tornar o sistema mais transparente e eficiente, sem alterar a carga tributária total.
A aprovação da reforma tributária é vista como um feito notável, evidenciando a capacidade de articulação política de Haddad. André Galhardo, economista-chefe da consultoria Análise Econômica, ressalta que a aprovação de um volume de reformas significativo, em um Congresso nem sempre alinhado ao governo, é elogiável e demonstra a habilidade do ministro em conectar os Poderes Executivo e Legislativo.
Arcabouço Fiscal: Tentativa de reorganizar as contas públicas
Em março de 2023, Haddad apresentou e aprovou o arcabouço fiscal, que substituiu o antigo teto de gastos. A nova regra fiscal visa reequilibrar as contas públicas ao permitir o crescimento real das despesas, atrelado ao aumento da arrecadação. Diferente do teto de gastos, que limitava a expansão das despesas à inflação do ano anterior, o arcabouço permite um avanço real do gasto entre 0,6% e 2,5% ao ano, condicionado a 70% do crescimento da receita.
Inicialmente, o arcabouço fiscal foi bem recebido pelo mercado, sinalizando uma preocupação do governo com a saúde das contas públicas. Contudo, a credibilidade da regra foi gradualmente abalada à medida que gastos começaram a ser excluídos de sua aplicação, conforme apontou Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda. Essa flexibilização, somada a revisões nas metas fiscais, gerou frustração entre os agentes do mercado financeiro.
Indicadores econômicos positivos e desafios na consolidação fiscal
A gestão de Haddad também foi marcada por indicadores econômicos e sociais positivos. A redução do desemprego para 5,6% ao final de 2025, o aumento da renda média da população e a expansão de programas sociais contribuíram para a diminuição da pobreza e da desigualdade no país. O crescimento do PIB, especialmente nos dois primeiros anos, superou as expectativas, surpreendendo economistas, segundo Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos.
No entanto, a busca pelo equilíbrio das contas públicas enfrentou obstáculos significativos. A dificuldade em cortar gastos, muitas vezes neutralizada por prioridades governamentais como o reajuste real do salário mínimo, levou a estratégia de Haddad a se concentrar mais no aumento da arrecadação do que na redução de despesas. Mesmo com o aumento das receitas, o país não atingiu a meta de zerar o déficit público, e o endividamento público continua sendo um ponto de atenção para o mercado.
Tributação da alta renda e desafios de credibilidade
Fernando Haddad também buscou tornar o sistema tributário mais progressivo, com foco na tributação da alta renda. Medidas como a taxação de fundos exclusivos e a cobrança sobre rendimentos no exterior foram aprovadas. Propostas como a tributação de lucros e dividendos ainda enfrentam resistência no Congresso. A defesa de uma tributação mais justa para os mais ricos foi levada por Haddad a fóruns internacionais como o G20.
A credibilidade na condução das contas públicas foi abalada por revisões nas metas fiscais e declarações que geraram incertezas sobre o cumprimento das obrigações. O anúncio de um pacote de corte de gastos, por exemplo, foi recebido com frustração ao vir acompanhado da promessa de isenção de Imposto de Renda para trabalhadores com renda de até R$ 5 mil, gerando um conflito entre a necessidade de ajuste fiscal e prioridades sociais.