Irã intensifica repressão a vozes críticas: Políticos reformistas processados por “propaganda contra o sistema”
O Poder Judiciário do Irã anunciou a abertura de processos contra políticos reformistas que foram detidos e posteriormente liberados sob fiança na semana passada. A acusação formal é de “propaganda contra o sistema”, um desdobramento das críticas que os detidos fizeram à repressão de protestos antigovernamentais ocorridos em janeiro.
A medida, divulgada pela agência de notícias iraniana Mizan, sinaliza um endurecimento do regime contra opositores, mesmo aqueles que buscam reformas dentro do próprio sistema da República Islâmica. A fiança estipulada para a libertação de alguns dos políticos foi de 50 bilhões de riais, o equivalente a aproximadamente 26,6 mil euros, mas a investigação sobre seus casos prossegue.
Esses eventos ocorrem em um contexto de crescente tensão no Irã, onde a liberdade de expressão tem sido cada vez mais cerceada. As denúncias sobre a repressão violenta a manifestações e a condenação de ativistas e figuras políticas ecoam internacionalmente, gerando preocupação com os direitos humanos no país.
Frente de Reformas sob pressão: Detenções e Processos
Na semana passada, seis membros da Frente de Reformas, uma coalizão de partidos moderados que defende a abertura do país dentro dos limites da República Islâmica, foram detidos pelas autoridades iranianas. Desses, quatro foram libertados mediante pagamento de fiança: a líder Azar Mansouri, o porta-voz Javad Emam, o ex-ministro das Relações Exteriores Mohsen Aminzadeh e o ex-parlamentar Ebrahim Asgharzadeh.
No entanto, outros dois detidos, Hossein Karrubi e Ali Shakourirad, permanecem sob custódia, cumprindo penas anteriores que haviam sido suspensas. Todos os citados haviam expressado publicamente críticas à forma como o governo lidou com os protestos antigovernamentais que eclodiram no final de dezembro do ano passado.
Protestos e números alarmantes de mortos e presos
As manifestações, iniciadas devido à desvalorização do rial, rapidamente se espalharam pelo país, com pautas que incluíam o fim da República Islâmica. A resposta das autoridades foi marcada por uma repressão violenta. O governo iraniano reconhece oficialmente 3.117 mortos durante esses eventos.
Contudo, organizações de oposição, como a HRANA, com sede nos Estados Unidos, apresentam números significativamente mais altos, situando o total de falecidos em 7.015. Essas mesmas organizações continuam a verificar mais de 11,7 mil mortes suspeitas e estimam que cerca de 53 mil pessoas foram presas no contexto desses protestos.
Repressão se estende a ativistas e figuras de destaque
A prisão de políticos reformistas não é um caso isolado. Nas últimas semanas, o Irã tem visto a detenção de numerosos ativistas. Entre eles está o roteirista Mehdi Mahmoudian, indicado ao Oscar pelo filme “Um Simples Acidente”.
A situação é ainda mais grave para figuras proeminentes na luta por direitos humanos. A vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2023, Narges Mohammadi, foi condenada em 8 de fevereiro a mais sete anos de prisão. Esta é a décima sentença contra ela desde 2021, evidenciando a perseguição a defensores dos direitos humanos no país.