Mensagens de Vorcaro colocam Alexandre de Moraes no centro do escândalo do Master
Dados e mensagens extraídos pela Polícia Federal dos telefones do banqueiro Daniel Vorcaro colocam o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, no centro do escândalo do Master. Essas informações sugerem que os dois trocaram mensagens não oficiais, nas quais Vorcaro relatava a Moraes sobre a venda do banco e discutia um inquérito sigiloso que levou à sua prisão em novembro do ano passado.
Para analistas, essa comunicação, se confirmada, posiciona o ministro Alexandre de Moraes e o STF no epicentro de um escândalo que já causa prejuízos superiores a R$ 51 bilhões ao sistema bancário brasileiro. Juristas ouvidos pela reportagem apontam que, embora os diálogos sejam sugestivos, ainda não são conclusivos, mas expõem uma vulnerabilidade no STF.
O constitucionalista André Marsiglia destaca que a mensagem de Vorcaro a um ministro do STF, caso confirmada como sendo para Alexandre de Moraes, levanta sérias questões. Ele enfatiza a necessidade de as investigações avançarem para determinar o significado exato e as implicações dessa comunicação, que já coloca mais um ministro no centro do caso Master.
Moraes nega conversas e STF detalha análise técnica
O ministro Alexandre de Moraes negou veementemente as conversas mencionadas, classificando a informação como uma “ilação mentirosa” com o objetivo de atacar o Supremo Tribunal Federal. O gabinete do ministro, em nota divulgada nesta sexta-feira (6), informou que uma análise técnica dos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, disponibilizados pela CPMI do INSS, concluiu que as mensagens de visualização única enviadas em 17 de novembro de 2025 não foram direcionadas a Moraes.
Segundo a Secretaria de Comunicação do STF, a verificação dos arquivos apreendidos indica que essas mensagens não correspondem aos contatos telefônicos de Moraes registrados no material analisado. Os prints das mensagens encontrados no celular de Vorcaro aparecem associados a pastas de outros contatos, não ao ministro.
A nota do gabinete de Moraes esclarece que, nos arquivos extraídos pelos investigadores, a mensagem e o contato correspondente estão armazenados na mesma pasta do computador de Vorcaro, o que sugere que o conteúdo estava ligado a outras pessoas. Os nomes dos contatos não foram divulgados devido a sigilo decretado pelo ministro André Mendonça.
Polícia Federal e a condução das investigações
A Polícia Federal, por sua vez, afirmou que conduz suas investigações com rigorosos padrões de segurança e respeito aos direitos fundamentais, como privacidade e intimidade. A instituição declarou que nenhum relatório da Operação Compliance Zero incluiu dados irrelevantes ou informações sobre a vida privada dos investigados.
A PF ressaltou que não lhe compete editar ou selecionar conversas e dados extraídos de equipamentos apreendidos, pois isso violaria o direito ao contraditório e à ampla defesa. Os materiais da operação estão sob custódia da PF e da Procuradoria-Geral da República desde novembro de 2025 e janeiro de 2026, respectivamente, e foram disponibilizados à defesa e à CPMI do INSS por decisões judiciais.
A equipe responsável pela Operação Compliance Zero solicitou ao relator do caso a abertura de apuração sobre o vazamento de informações sigilosas.
O conteúdo das conversas e a tentativa de evitar a prisão
Uma das conversas mais relevantes ocorreu em 17 de novembro de 2025, estendendo-se de pouco após as 7h até quase as 21h, pouco antes da prisão do banqueiro. As mensagens de Vorcaro abordavam a negociação para a venda do Master e um inquérito sigiloso sobre supostas fraudes do banco em uma negociação bilionária com o Banco Regional de Brasília (BRB).
Vorcaro teria escrito: “Estou tentando antecipar os investidores aqui, e tenho chances de conseguir assinar e anunciar ainda hoje uma parte. E aí eu irei lá pra tentar assinatura dos demais investidores estrangeiros”, segundo reportagem do jornal O Globo.
Em outras mensagens, Vorcaro parecia se referir a medidas judiciais: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar (…) Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, escreveu o banqueiro. A natureza exata do que ele tentava dizer sobre “salvar” ou “bloquear” não é clara, mas o contexto era de intensa movimentação para evitar a liquidação do banco e uma ordem de prisão.
A Polícia Federal indicou que Vorcaro, através de um esquema, invadiu sistemas da PF e de outras instituições para descobrir a existência de um inquérito sigiloso sobre a venda do Master para o BRB. A hipótese é que a mensagem de 17 de novembro tenha permanecido no celular por esquecimento ou pela correria do dia.
A defesa de Vorcaro e a estratégia judicial
A partir do conhecimento da investigação, a defesa de Vorcaro teria utilizado uma publicação em um site de notícias sobre a vara onde o inquérito tramitava para protocolar uma petição, declarando-se à disposição da Justiça e pedindo para não ser preso. Foi nesse contexto que Vorcaro escreveu ao ministro: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar (…) Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”
Houve resposta do ministro, mas com visualização única. As últimas interlocuções registradas ocorreram após as 20h do dia 17 de novembro. Vorcaro teria perguntado sobre novidades e recebido duas mensagens atribuídas a Moraes, não reveladas. Nas últimas mensagens de Vorcaro, próximo das 21h, ele mencionou que a negociação com o grupo estrangeiro “foi o que poderia ter sido feito” e que a medida poderia “inibir”.
Investigadores avaliam que isso poderia ser uma última tentativa de barrar ações legais contra ele ou o Master. Vorcaro encerrou o diálogo dizendo que ia “assinar com os investidores de fora”, indicando saída do país, mas que “estava online”. Moraes teria, supostamente, reagido com um sinal de positivo. Vorcaro foi preso em seu jatinho antes de deixar o país.
Contatos com o Banco Central e outras revelações
Em dezembro passado, surgiu outra suspeita de ligação entre Moraes e Vorcaro. Alexandre de Moraes teria mantido contatos com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar da situação do Banco Master. Na época, a assessoria do ministro negou intervenção, afirmando que as reuniões eram para discutir efeitos de sanções internacionais, sem conversas sobre o Master.
O constitucionalista Alessandro Chiarottino considera que as novas revelações têm potencial para jogar o magistrado no centro de uma crise institucional relevante, caso os fatos sejam confirmados. Ele avalia que o episódio pode gerar repercussões internas e externas ao STF.
O jornal O Globo já havia revelado que a esposa de Moraes, Viviane Barci, assinou um contrato de R$ 129 milhões para defender o banco Master. O doutor em Direito Luiz Augusto Módolo argumenta que a situação coloca o magistrado em destaque em um episódio delicado, e que a função de um ministro do STF exige distanciamento absoluto.
Módolo afirma que, caso um magistrado tenha interesses paralelos, o caminho adequado seria deixar o cargo. “A principal função de um ministro do STF é ser justamente ministro do STF”, acrescenta.
O escritório de Viviane Barci e a defesa de Vorcaro
Para o constitucionalista André Marsiglia, Vorcaro trocava mensagens com “todo mundo”, menos com sua advogada, “a mulher de Moraes”. Investigadores identificaram indícios de que Daniel Vorcaro se preparava para explicar publicamente sua relação com Alexandre de Moraes e o contrato com o escritório de Viviane Barci de Moraes.
Vorcaro pretendia sustentar que o escritório prestou serviços ao banco, incluindo a elaboração de manuais de compliance. Módolo reitera que, mesmo em um cenário hipotético em que o magistrado não tivesse conhecimento de vínculos profissionais de familiares, a existência de contatos diretos entre um juiz e alguém envolvido em questões judiciais já seria problemática.
A investigação também revelou que Vorcaro tinha acesso a chefes de supervisão do Banco Central. Um deles teria assinado uma ata de reunião “improvisada” no BC após a prisão de Vorcaro, com o objetivo de demonstrar que ele estava a caminho de Dubai para fechar um negócio e vender o Master. Pelo menos mais uma conversa por aplicativo, datada de 1º de outubro de 2025, foi detectada, mas seu conteúdo não pôde ser recuperado por ser de visualização única.
O STF em xeque e a crise institucional
Módolo afirma que a situação ganha contornos institucionais mais amplos por envolver integrantes da mais alta Corte do país. Ele avalia que, se ministros do STF precisarem se declarar impedidos ou suspeitos em casos ligados a Vorcaro, o funcionamento do tribunal pode ser afetado.
Chiarottino observa um desgaste crescente na opinião pública em relação ao tribunal. Ele avalia que o episódio pode aprofundar divisões na sociedade civil e no meio jurídico. Módolo considera o episódio uma crise institucional incomum, difícil de encontrar precedentes na história do Supremo.
Fontes envolvidas na investigação relatam que Vorcaro tinha o hábito de apagar mensagens e enviá-las em formato de visualização única, o que dificulta a recuperação de conversas. Análises da PF apontariam para supostas chamadas telefônicas entre Vorcaro e Moraes, com este padrão de comunicação possivelmente utilizado para reduzir rastros digitais.