O Fim de uma Era: Orelhões Desaparecem das Ruas e Levam Histórias de Amor e Comunicação

O anúncio do fim dos orelhões no Brasil, com a retirada planejada a partir de janeiro de 2026, desperta uma onda de nostalgia e recordações para muitos brasileiros. A comunicação, que antes exigia planejamento, fichas no bolso e criatividade, está prestes a se tornar apenas uma lembrança para as novas gerações.

Em Feira de Santana, na Bahia, a história do casal Kate Sampaio e Paulo Ricardo ilustra vividamente essa transição. O início do relacionamento deles, há quase 25 anos, foi marcado pela dependência dos telefones públicos, um cenário que hoje parece distante.

Essas memórias, repletas de estratégias para otimizar o tempo e os créditos, foram compartilhadas em entrevista ao g1, ajudando a entender a importância desses aparelhos em uma época de comunicação mais restrita e, por vezes, desafiadora.

O Amor Mediado por Fichas e um Toque no Orelhão

Para a maquiadora Kate Sampaio, de 44 anos, e o gerente comercial Paulo Ricardo, de 45, os orelhões eram os principais meios de contato durante o início do namoro. “Era tudo muito rápido. Tinha que falar só o essencial, porque o tempo acabava logo”, relembra Kate, explicando que ligações interurbanas exigiam ainda mais concisão.

Naquela época, sem telefone fixo em casa, um orelhão próximo se tornou um ponto estratégico do relacionamento. Paulo Ricardo revela que um simples toque no telefone era o sinal combinado para avisar que ele havia chegado bem em casa. Essa comunicação, embora breve, era suficiente para tranquilizar Kate.

“A gente paquerava só por ligação mesmo. Pelo orelhão, marcava o dia de se ver pessoalmente”, conta Paulo Ricardo, que frequentava a mesma igreja que Kate, tornando os encontros após a missa os momentos mais aguardados.

Estratégias Criativas para Vencer a Distância e os Custos

Kate Sampaio descreve os orelhões como uma extensão quase residencial das casas, o que demandava “estratégias criativas” para driblar os custos. Uma delas era o uso de um número que funcionava como caixa postal.

“A gente ligava a cobrar, deixava o recado rapidinho antes da ligação cair, e a outra pessoa depois ligava para ouvir de graça”, explica Kate, demonstrando a engenhosidade da época para manter o contato sem gastar muito.

Orelhões: Um Marco Histórico na Comunicação Brasileira

O historiador Paulo Medford ressalta a importância social dos orelhões. Durante grande parte do século 20, ter um telefone residencial era um símbolo de status e poder aquisitivo, com longas filas de espera para aquisição de linhas.

“Os telefones públicos existiam, mas eram escassos e mal distribuídos. Foi nesse cenário que os orelhões surgiram e mudaram de forma profunda a relação do brasileiro com a comunicação”, afirma Medford.

Ele lembra que os orelhões se tornaram palco de momentos íntimos e, por vezes, dramáticos. “Há vários relatos de pedidos de namoro, reconciliações e até términos dramáticos feitos ali mesmo, no meio da rua”, comenta o historiador.

A implantação em larga escala dos orelhões, a partir da década de 1970, foi um avanço significativo. “Qualquer cidadão, munido de uma ficha telefônica, podia avisar a família, procurar emprego, resolver problemas urgentes ou pedir ajuda em situações de emergência”, destaca Medford.

Da Comunicação Essencial à Coleção de Cartões

A realidade de José Damasceno, aposentado de 70 anos, também foi marcada pelos orelhões. Trabalhando como plataformista em alto-mar, ele dependia desses aparelhos para manter contato com a família.

Com o tempo, José se tornou um colecionador de cartões telefônicos, chegando a juntar cerca de 4 mil exemplares. Ele guarda cartões de novelas, Copas do Mundo e até de outros países, vendo alguns deles se tornarem verdadeiros investimentos.

O Declínio dos Orelhões e o Futuro da Comunicação

Em Feira de Santana, a diminuição do número de orelhões foi drástica. Dados da Anatel indicam que, em janeiro de 2020, o município possuía 594 aparelhos. Hoje, restam apenas dois orelhões com linha ativa, enquanto os demais são apenas carcaças aguardando remoção.

Em todo o Brasil, cerca de 38 mil orelhões ainda estão espalhados. A retirada em massa se intensifica a partir de janeiro de 2026 e seguirá de forma gradual até 2028. Os aparelhos só serão mantidos temporariamente em locais sem cobertura de telefonia móvel, marcando o definitivo adeus a um ícone da comunicação pública brasileira.

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