Entenda por que o chocolate segue caro na Páscoa, mesmo com o preço do cacau em queda no campo, e quando o consumidor poderá sentir o alívio nos supermercados.
Os consumidores brasileiros enfrentarão mais um ano com preços elevados na hora de comprar chocolates para a Páscoa. Apesar da recente queda nas cotações do cacau para os produtores, o valor do chocolate em barra e bombons acumula uma alta de 26% em 12 meses, conforme dados do IBGE.
A indústria de chocolate, que compra a matéria-prima com antecedência, ainda utiliza o cacau adquirido em períodos de preços recordes. Essa dinâmica explica a persistência dos valores altos nas prateleiras, mesmo com as cotações internacionais e nacionais do cacau em declínio.
Recentemente, o governo brasileiro suspendeu a importação de cacau da Costa do Marfim, maior produtor mundial. No entanto, especialistas indicam que essa medida não deve impactar a disponibilidade da amêndoa nem pressionar os preços no Brasil, dada a produção nacional e a possibilidade de suprir a demanda com cacau do Equador, que tem uma safra abundante. As informações são de analistas como Lucca Bezzon, da StoneX, e Carlos Cogo, da Cogo Inteligência em Agronegócio.
Por que o Chocolate Está Caro e Quando Vai Baixar
A queda no preço do cacau pago ao agricultor, que começou no ano passado, ainda não se reflete no bolso do consumidor. Isso ocorre porque as fabricantes de chocolate realizam compras antecipadas da matéria-prima, como manteiga e pó de cacau, com uma janela de 6 a 12 meses de antecedência, segundo Lucca Bezzon. Essa prática garante o suprimento, mas mantém os preços elevados no varejo.
Enquanto produtores recebem menos e consumidores pagam mais, a indústria de chocolate tem aproveitado o cenário para recompor suas margens de lucro. Carlos Cogo explica que, após anos de margens apertadas devido ao déficit global de cacau, as empresas priorizam a recuperação financeira antes de repassar reduções de custo. A expectativa é que a queda nos preços dos chocolates nos supermercados se torne perceptível a partir do segundo semestre deste ano, com uma normalização gradual ao longo de 2025, caso os preços internacionais e domésticos do cacau se mantenham baixos.
O Que Motivou a Disparada de Preço do Cacau
O preço elevado do chocolate nas prateleiras é reflexo direto da forte diminuição na colheita de cacau em 2024, tanto no Brasil quanto em países africanos como Costa do Marfim e Gana. Esses importantes produtores foram afetados por condições climáticas adversas, como secas e excesso de chuvas provocados pelo fenômeno El Niño, além de pragas e doenças que prejudicaram as lavouras.
A indústria brasileira, que depende majoritariamente da produção nacional, recorre às importações africanas para complementar sua demanda. A escassez nessas duas fontes de fornecimento impulsionou os preços domésticos do cacau, que chegaram a subir mais rapidamente do que os valores internacionais em 2024. Em janeiro de 2025, o preço do cacau na Bolsa de Nova York atingiu uma média de US$ 10 mil por tonelada, um salto significativo em relação aos cerca de US$ 4 mil por tonelada de um ano antes.
Por Que o Preço do Cacau Caiu no Campo
Apesar dos recordes de preço atingidos no mercado internacional, as cotações do cacau para o produtor no Brasil começaram a cair a partir de julho do ano passado. Carlos Cogo atribui essa queda a uma recuperação gradual das colheitas no Brasil e em países africanos, além de um aumento no volume de importações impulsionado pela desvalorização do dólar. No entanto, Lucca Bezzon aponta que a queda de preços no Brasil é mais influenciada pela falta de demanda da indústria de confeitaria e processadoras de cacau, que reduziram suas compras de subprodutos e amêndoas, levando a um despencamento dos preços internos.
Na Bahia, por exemplo, agricultores estão recebendo em média R$ 200 pela arroba do cacau, um valor 70% inferior ao registrado há um ano. Essa situação tem gerado protestos, com produtores rurais manifestando-se contra a importação e os baixos preços, exigindo maior controle sanitário sobre o cacau vindo de outros países. O governo brasileiro suspendeu a importação da Costa do Marfim sob a alegação de risco sanitário, pois há suspeitas de que grãos de cacau de países sem autorização de exportação para o Brasil estariam sendo misturados aos lotes marfinenses.
Atualmente, há um excesso de cacau na Costa do Marfim, que também enfrenta dificuldades para escoar sua produção. Em 2025, a produção brasileira de cacau foi de 186.137 toneladas, com 42.199 toneladas importadas, sendo 81% provenientes da Costa do Marfim. A decisão de suspender a importação, segundo o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, visa garantir a segurança sanitária da produção nacional e evitar a entrada de doenças.