China e Brasil se tornam os novos grandes compradores de petróleo e diesel russos, enquanto outros mercados recuam sob pressão dos EUA.
As exportações de petróleo e diesel da Rússia para a China e o Brasil, respectivamente, registraram um aumento expressivo em janeiro, impulsionadas por descontos agressivos e pela busca por vantagens econômicas. Essa nova dinâmica ocorre em um cenário onde outros compradores tradicionais, como Índia e Turquia, diminuem suas importações sob a pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Enquanto a Rússia busca compensar a perda de mercados europeus, a China intensifica suas importações de petróleo russo, e o Brasil aumenta a compra de diesel. Essa movimentação, detalhada por estatísticas de plataformas financeiras e consultorias, levanta questionamentos sobre o financiamento da guerra na Ucrânia e os riscos de novas sanções econômicas.
A estratégia russa de oferecer preços mais baixos após a perda de mercado na Europa tem sido eficaz em atrair novos compradores. Especialistas apontam que, para países como China e Brasil, os fatores econômicos e operacionais superam as considerações ideológicas, embora o efeito colateral seja o sustento das receitas russas. Conforme informação divulgada pela Reuters, a China comprou mais de 1,5 milhão de barris de petróleo russo por via marítima em janeiro, um aumento significativo em relação a dezembro.
China impulsiona demanda por petróleo russo com foco em segurança energética
A China se consolidou como um dos principais destinos do petróleo russo. Em janeiro, as importações chinesas atingiram mais de 1,5 milhão de barris diários por via marítima, superando os 1,1 milhão de barris diários de dezembro. Segundo a consultoria Kpler, a importação de petróleo Urals, a principal mistura de exportação russa, bateu recorde em janeiro, com 405 mil barris diários, o maior nível desde 2023.
A parceria energética entre Rússia e China foi descrita pelo presidente russo, Vladimir Putin, como “estratégica” durante uma videoconferência com seu homólogo chinês, Xi Jinping. Desde o início da invasão da Ucrânia, a China já adquiriu mais de US$ 230 bilhões em petróleo e gás russos, o que gera preocupações éticas sobre o financiamento da agressão russa.
Adriana Melo, especialista em finanças e tributação, destaca que, para a China, existe um componente estratégico de segurança energética e diversificação, mas a decisão é fundamentalmente pragmática. “Ela compra para se ajudar (preço e logística), embora o efeito colateral seja sustentar receita russa”, explicou Melo.
Brasil aumenta importação de diesel russo atraído por preços competitivos
O Brasil também se tornou um comprador relevante de produtos energéticos russos, especialmente diesel. Dados da plataforma Vortexa, publicados pela Bloomberg Línea, indicam que as importações brasileiras de diesel russo voltaram a crescer em janeiro, atingindo uma média de 151 mil barris diários. Esse volume representa o maior patamar desde junho do ano passado e um aumento expressivo em relação aos cerca de 58 mil barris diários registrados em dezembro.
As importações brasileiras de diesel russo haviam sofrido uma queda no segundo semestre de 2025, devido a ataques ucranianos a refinarias russas que impactaram a produção. No entanto, a competitividade do diesel russo, comparado a outras origens, impulsionou a retomada das compras.
Melo descreve o fator brasileiro como “ainda mais prosaico”: “diesel barato, disponível e no timing certo. Em janeiro, importações de diesel russo voltaram a ganhar espaço por competitividade frente a outras origens, inclusive os Estados Unidos. Lembrando que ideologia não move caminhão, mas diesel move”, afirmou a especialista.
Trump pressiona mercados, enquanto Rússia encontra brechas na China e Brasil
A pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que países interrompam a compra de energia russa como forma de forçar um cessar-fogo na Ucrânia tem surtido efeito em alguns mercados. A Índia, que no ano passado sofreu taxação de 25% por Trump em suas compras de petróleo russo, reduziu suas importações para menos de 1 milhão de barris diários em dezembro, ante uma média de 1,3 milhão no ano anterior.
A Turquia também diminuiu suas importações de petróleo Urals em janeiro para cerca de 250 mil barris diários, abaixo da média de 275 mil barris diários de 2025 e do recorde de 400 mil barris diários alcançado em junho do ano passado. Recentemente, Trump anunciou que a Índia concordou em parar de comprar petróleo russo em troca de uma redução nas tarifas americanas sobre produtos indianos.
Riscos e implicações para compradores de energia russa
A especialista Adriana Melo alerta que países como China e Brasil, que mantêm relações comerciais com a Rússia no setor energético, estão sob ameaça de novas tarifas americanas. Trump já havia ameaçado aplicar tarifas secundárias de 100% sobre importações da Rússia em 2025.
Para a China, a exposição ao risco é maior, considerando sua posição central em disputas comerciais e tecnológicas com os EUA. “Energia pode entrar no pacote”, ponderou Melo. No caso do Brasil, o risco é considerado menor, mas não inexistente. A especialista sugere que o uso de tarifas contra o Brasil seria mais provável como forma de pressão e sinalização do que como uma punição imediata, devido ao custo político e econômico de escalar conflitos com um parceiro relevante.