Promotor Haroldo Caetano narra dias de terror como refém de Leonardo Pareja em presídio: ‘Pensei que morreria’
Trinta anos após viver dias de tensão como refém dentro de um presídio em Goiânia, o promotor de Justiça Haroldo Caetano relembra a experiência que marcou sua trajetória. Na época, ele foi mantido em cativeiro durante uma rebelião liderada por Leonardo Rodrigues Pareja, um dos criminosos mais conhecidos do país nos anos 90.
Pareja ganhou notoriedade após sequestrar uma adolescente em 1995, em Salvador. Após a fuga, ele mobilizou operações policiais em diversos estados até se entregar em Goiânia. Já preso, comandou o motim no Centro Penitenciário de Atividades Industriais do Estado de Goiás (Cepaigo) durante a visita de autoridades.
A rebelião durou seis dias e resultou na tomada de reféns, incluindo integrantes do Judiciário, da segurança pública e equipes de reportagem. A crise só terminou após os detentos deixarem o presídio em comboio, levando reféns, armas e dinheiro. Pareja foi recapturado no dia seguinte e, meses depois, assassinado dentro do sistema prisional. As memórias deste episódio foram reunidas no livro ‘A Rebelião’, que entra em pré-venda neste mês. As informações são do g1.
O início do pesadelo: A visita que se tornou cativeiro
Haroldo Caetano tinha 26 anos na época, hoje com 56, e já atuava na área de execução penal. Ele participou de um mutirão carcerário na unidade quando a visita de autoridades foi interrompida pelo motim. Ele passou a integrar o grupo de reféns, sem ter ideia do que estava por vir.
Nos primeiros momentos, a dimensão da situação era difícil de compreender. A percepção de que o cenário havia saído do controle veio com a escalada da violência dentro da unidade. Os detentos passaram a agir com ameaças constantes, exibindo armas improvisadas e impondo medo aos reféns.
“A gente não sabia o que ia acontecer. A incerteza era constante”, relembra Caetano. Ele descreve a rotina marcada por tensão, medo e desgaste físico e psicológico. A pressão por fuga por parte dos detentos aumentava a angústia dos reféns, que viviam na expectativa de serem libertados.
Dias de terror e a fuga cinematográfica de Pareja
Durante os dias em que permaneceu sob poder dos presos, Caetano relata que a incerteza era a constante. Ao deixar o presídio, o promotor havia perdido cerca de oito quilos devido ao estresse e à falta de alimentação adequada. Mesmo confinados, os reféns conseguiam ter alguma noção do que ocorria fora dos muros da prisão.
A fuga de Leonardo Pareja e outros detentos, levando reféns, armas e dinheiro, foi um momento de pura adrenalina e desespero. Pareja, conhecido por sua audácia, chegou a parar em um bar durante a fuga, onde comprou bebidas, cigarros e até deu autógrafos, reforçando sua postura desafiadora.
Essa fuga cinematográfica, que parou o estado de Goiás e mobilizou forças policiais, é um dos pontos centrais narrados por Caetano. A sensação de impotência diante da ousadia do criminoso era palpável entre os reféns.
As lições amargas de uma rebelião inesquecível
Para o promotor, a experiência vivida dentro do presídio ampliou sua percepção sobre o sistema prisional e revelou problemas que, infelizmente, ainda persistem. A falta de visibilidade sobre o que realmente acontece dentro das unidades prisionais é um dos pontos que ele mais destaca.
Ele ressalta a importância de registrar esse episódio para que não seja esquecido e para que sirva de reflexão sobre a realidade do sistema carcerário brasileiro. Escrever o livro ‘A Rebelião’ foi uma forma de processar a experiência traumática e dar voz a um evento que marcou profundamente sua vida e a história de Goiás.
Lançamento do livro e reflexão sobre o passado
A obra ‘A Rebelião’ será lançada no dia 15 de abril, às 19h, na Assembleia Legislativa de Goiás. O livro promete trazer detalhes inéditos e a perspectiva de quem viveu de perto a tensão e o medo durante os dias em que a vida esteve por um fio.
Haroldo Caetano espera que o livro contribua para a discussão sobre segurança pública e o sistema penitenciário, além de servir como um alerta sobre os perigos que podem surgir quando a ordem é quebrada e a vida humana é posta em risco.