PT divulga resolução política com tom de campanha antecipada para 2026, gerando debate sobre defesa da democracia e estratégia eleitoral.
A Comissão Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) apresentou uma resolução política que analistas consideram um manifesto eleitoral com foco na disputa de 2026. O documento, que avalia o governo Lula, analisa o cenário político e econômico e traça diretrizes para a mobilização da militância, tem como objetivos centrais a reeleição do presidente e a formação de uma maioria aliada no Congresso.
A resolução, aprovada em reunião do Diretório Nacional e apresentada durante as comemorações de 46 anos da sigla, ganhou destaque com declarações do próprio Lula, que em evento em Salvador, conclamou a militância a se preparar para uma “guerra” eleitoral, indicando o fim da fase “Lulinha Paz e Amor”.
O documento orienta as bases do partido a construir um calendário de mobilizações que articule a “defesa do governo Lula”, o enfrentamento à “extrema-direita” e a oposição ao “projeto rentista-autoritário”. Conforme apurado, o PT estabelece datas específicas para ações, como 10 de fevereiro, 8 de março e 1º de maio. A informação é baseada na resolução divulgada pelo partido.
Estratégia de Polarização e Criação de Inimigos
Para analistas, a resolução do PT reafirma uma estratégia histórica de **polarização e criação de inimigos externos**, especialmente contra o “bolsonarismo” e a direita, como forma de engajar a militância. Luiz Augusto Módolo, doutor em Direito e comentarista político, avalia que o documento aposta na **divisão social e identitária**, estimulando antagonismos artificiais.
O documento descreve a disputa eleitoral como um confronto entre um projeto democrático e popular contra um projeto que busca subordinar o Estado brasileiro aos interesses do capital financeiro e de uma agenda autoritária. Essa visão é criticada por especialistas, que a veem como um manifesto do bem contra o mal, potencializando divisões em vez de promover um debate de propostas.
A resolução do PT enfatiza a disputa entre o projeto democrático e popular que colocou o povo no centro das decisões e o projeto autoritário, excludente e subordinado aos interesses do capital rentista e da extrema direita global. O partido critica o que chama de “bolsonarismo”, independentemente de quem seja seu porta-voz nas urnas.
Críticas à Abordagem Econômica e de Segurança
Na esfera econômica, analistas apontam **uso seletivo de indicadores positivos**, como a queda do desemprego e o controle da inflação, sem contextualizar fatores externos favoráveis ou mencionar riscos fiscais de médio e longo prazo. Questões como o aumento da dívida pública e a insegurança jurídica não são abordadas.
O PT afirma que o governo Lula recolocou o Brasil no rumo do crescimento com distribuição de renda e responsabilidade fiscal, defendendo a queda da taxa de juros para poupar cofres públicos. No entanto, Módolo aponta contradições, considerando cínica a crítica ao capital rentista, visto que os juros permaneceram elevados e recursos foram destinados ao pagamento da dívida pública durante o governo.
A insistência na redução dos juros é vista por alguns como um sinal de resistência do PT à autonomia da autoridade monetária, reacendendo temores de interferência política e impactos inflacionários. Regina Martins, analista de mercado financeiro, alerta para o enfraquecimento da previsibilidade econômica com esse discurso.
Sobre segurança pública, o documento nega a existência de “narcoterrorismo” no Brasil, classificando-o como retórica da direita para gerar pânico e legitimar autoritarismo. O PT critica o uso de termos como narcoterrorismo, importado de narrativas de Donald Trump, para justificar políticas de exceção e militarização.
Marcelo Almeida, especialista em segurança pública, considera que a resolução relativiza a segurança pública e revela fragilidades na abordagem do governo, além de demonstrar desconhecimento prático sobre o combate à criminalidade. Ele aponta alinhamentos ideológicos antiamericanos e defesa de regimes como o de Nicolás Maduro.
Pesquisa recente indica que a segurança pública é o principal ponto de avaliação negativa do governo Lula, com 48,7% dos entrevistados considerando a atuação ruim ou péssima. A pesquisa foi realizada pela Meio/Ideia entre 8 e 12 de janeiro com dois mil pessoas.
Contradições na Abordagem sobre Corrupção e Regulação de Plataformas
A abordagem do PT sobre corrupção também é considerada contraditória. Embora associe escândalos financeiros recentes ao “capital rentista”, o documento não menciona autocríticas sobre casos envolvendo governos petistas. Módolo avalia que o combate à corrupção aparece de forma seletiva, direcionada a adversários.
A defesa da regulação das plataformas digitais, apresentada como proteção à democracia, é vista por analistas como uma potencial ameaça à liberdade de expressão. Há o risco de que o combate à desinformação seja usado para restringir o debate político e silenciar vozes divergentes.
O PT argumenta que a extrema-direita está conectada a uma rede internacional de desinformação e manipulação, tornando a regulação democrática das plataformas digitais indispensável para defender a democracia. O partido reafirma que a eleição de 2026 terá caráter histórico, com a reeleição de Lula como condição estratégica para consolidar a democracia e derrotar o “bolsonarismo”.
O documento conclui que a tarefa do partido vai além do eleitoral, sendo política, social e organizativa, visando a continuidade do projeto atual, a eleição de governadores alinhados e a formação de maiorias no Congresso para impor um “revés político ao bolsonarismo”.