Rússia caminha para desconectar sua internet do resto do mundo, intensificando censura digital e forçando retorno a tecnologias antigas.
Em um cenário de crescente isolamento digital, a Rússia tem intensificado suas ações para controlar o acesso à internet, levando a frequentes apagões e ao bloqueio de ferramentas essenciais de comunicação. A medida tem forçado cidadãos russos a buscarem alternativas como pagers, mapas de papel e telefones fixos, em um movimento que remete a tecnologias do passado.
O cerco do governo de Vladimir Putin à internet livre se intensificou drasticamente desde a invasão da Ucrânia. Sites considerados “pouco confiáveis” pelo regime são proibidos, e serviços básicos como chamadas de táxi, pagamentos e ligações podem ficar indisponíveis a qualquer momento, gerando incerteza e dificuldades no cotidiano da população.
A situação, detalhada por reportagens recentes, indica um movimento deliberado do Kremlin para criar uma “internet soberana” ou “runet”, dissociada da rede global. Essa estratégia, que visa restringir o acesso a plataformas estrangeiras e impor a legislação russa em termos de segurança e combate ao terrorismo, é apresentada como necessária para a segurança nacional. Conforme informação divulgada pelo jornal Kommersant, até meados de janeiro, a Rússia havia bloqueado mais de 400 VPNs, um aumento de 70% em relação ao final do ano anterior. Essa informação foi divulgada pelo jornal Kommersant.
Ameaça ao Telegram Gera Críticas e Sinais de Descontentamento Interno
O foco mais recente do governo tem sido o aplicativo de mensagens Telegram, amplamente utilizado na Rússia com cerca de 100 milhões de usuários. A possibilidade de um bloqueio total, que chegou a ser cogitada para os próximos dias, gerou raras reações públicas, inclusive de apoiadores do regime. O ministro da Digitalização, Maksut Shadayev, afirmou que houve tentativas “em vão” de chegar a um acordo com o Telegram para impor custos extras caso o tráfego de dados internacionais mensal ultrapassasse 15 gigabytes. Essa declaração foi feita no MAX, aplicativo de mensagens desenvolvido pela Agência Russa de Telecomunicações, a Roskomnadzor.
A justificativa oficial para as restrições à internet móvel, segundo o Kremlin, é o combate a drones ucranianos. No entanto, o descontentamento com a medida tem se manifestado de forma surpreendente. Figuras alinhadas ao regime, como o governador de Belgorod, região fronteiriça com a Ucrânia, declararam que as interrupções estavam causando “mortes desnecessárias” em meio ao conflito. Vídeos que circulam online mostram soldados russos do front, em condições de anonimato, afirmando que o Telegram é crucial para as operações e pedindo o recuo da decisão do Kremlin, conforme noticiado pelo The New York Times.
VPNs Bloqueadas e Busca por Alternativas Digitais
O combate às VPNs (Redes Privadas Virtuais), usadas para contornar a censura, também se intensificou. O ministro Maksut Shadayev declarou que a meta é “reduzir o uso” e “restringir o acesso a uma série de plataformas estrangeiras”. Essa pressão levou gigantes como a Apple a retirar VPNs que permitiam o acesso a sites censurados da plataforma App Store. Especialistas da desenvolvedora Amnezia, citados pelo jornal britânico The Guardian, preveem que os bloqueios em Moscou se tornarão “mais ou menos rotineiros”, e que as autoridades possuem a tecnologia para impor um apagão digital simultâneo em todo o país, semelhante ao observado no Irã.
Em meio a essas dificuldades, a busca por alternativas tem impulsionado a venda de dispositivos como walkie-talkies, telefones fixos, pagers e até antigos tocadores de MP3. A situação foi ironizada pelo presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, que comentou nas redes sociais: “É um retrocesso de 100 anos. É melhor que eles comecem logo a usar correspondência em papel, telégrafos e cavalos. É esse o tipo de civilização que eles têm.”
Censura Reforçada desde 2022 e o Legado da Era Soviética
Desde a invasão da Ucrânia em 2022, a Rússia implementou leis consideradas as mais repressivas desde a era soviética. A censura foi reforçada, aumentando a influência do Serviço Federal de Segurança, sucessor da KGB. Em 2022, a Meta, proprietária do Facebook e Instagram, foi oficialmente declarada “terrorista” no país, resultando na queda do acesso às redes sociais de Mark Zuckerberg. Mais recentemente, o WhatsApp foi bloqueado, o Telegram teve sua velocidade reduzida e o acesso à internet móvel foi interrompido repetidamente em diversas cidades e regiões.
O Telegram, desenvolvido pelo russo Pavel Durov, tornou-se um meio de comunicação vital. É utilizado por soldados em ação na Ucrânia para se comunicar com suas famílias e por prefeituras de cidades russas próximas à zona de conflito para alertar a população sobre ataques aéreos. A repercussão negativa dessas medidas chegou até mesmo à câmara baixa do Parlamento russo, onde uma proposta para que o Kremlin justificasse o bloqueio do Telegram foi rejeitada, mas com 77 votos a favor, evidenciando o desconforto com a situação.
Apesar da negação de cerca de 25 pedidos de autorização para manifestações contra as restrições ao Telegram, 12 pessoas foram presas em um protesto em Moscou no último domingo, em favor da liberdade de expressão, demonstrando a resistência da população às crescentes limitações impostas pelo governo à comunicação e ao acesso à informação.